Existe uma fase na vida em que todos nós, em algum grau, nos sentimos desamparados. É quando olhamos ao redor em busca de segurança e não a encontramos. Pode ser na infância, pode ser na vida adulta, ou pode se repetir diversas vezes ao longo do caminho. Esse sentimento profundo de abandono, essa dor de perceber que o mundo é maior e mais hostil do que imaginávamos, é a essência do arquétipo do Órfão.
Mas o que é exatamente um arquétipo? Em termos bem simples, podemos dizer que são padrões universais de comportamento, formas simbólicas que habitam nosso inconsciente coletivo, expressão cunhada por Carl Gustav Jung1 para descrever essa espécie de herança psíquica que todos carregamos, independentemente da cultura ou época em que vivemos. O arquétipo do Órfão, nesse sentido, não se refere apenas à criança sem pais biológicos. Ele vai muito além. Trata-se de uma vivência emocional profunda, a perda da inocência, o confronto com a dor da rejeição, da solidão, da traição, do desamparo.
O Órfão é aquele que desperta para a realidade e se dá conta de que não está protegido como pensava. É o momento simbólico em que caímos do colo da mãe para o chão do mundo. E esse chão é frio, duro, às vezes cruel. O arquétipo nos visita, por exemplo, quando enfrentamos uma decepção amorosa, quando somos demitidos inesperadamente, quando perdemos alguém importante, ou mesmo quando nos sentimos invisíveis em meio a uma multidão.
É importante entender que esse arquétipo não é negativo em si. Ele dói, sim. Mas também nos ensina. O Órfão aprende, a duras penas, que confiar cegamente nos outros pode ser perigoso, e isso o torna mais atento. Ele começa a se perguntar em quem pode confiar, o que é verdadeiro, o que é seguro. O processo de amadurecimento começa por aí. O Órfão não é apenas aquele que perdeu, é aquele que começa a buscar por algo mais autêntico, mais profundo, mais real.
Essa busca pode tomar muitas formas, encontrar novos vínculos, construir uma família simbólica, criar raízes onde antes só havia vazio. E é aí que esse arquétipo se transforma. Quando o Órfão compreende que, apesar das perdas, ainda pode fazer escolhas, ele dá um passo em direção à autonomia. Em vez de se ver apenas como vítima, ele começa a assumir sua história. É o início de uma nova fase.
Um exemplo muito conhecido desse movimento é a trajetória de Harry Potter, personagem criado por J.K. Rowling. Desde o início da saga, Harry é apresentado como um Órfão literal, seus pais foram assassinados quando ele ainda era um bebê. Criado pelos tios, em um ambiente frio, hostil e negligente, Harry cresceu sentindo-se excluído, rejeitado, diferente. Ele não conhecia seu passado, não entendia quem era, e era tratado como um incômodo.
Esse é o primeiro estágio do Órfão, a dor crua da rejeição. A percepção de que o mundo em que se vive não acolhe, não protege, não ama. Mas é justamente esse vazio que coloca Harry em movimento. Aos poucos, ele descobre que existe um outro universo, o mundo da magia, e nele, começa a reconstruir sua identidade. Ainda assim, ele não encontra segurança imediatamente. O ambiente mágico, embora fascinante, também apresenta perigos, ameaças e traições.
Harry não deixa de ser um Órfão apenas porque encontra um novo lugar. O processo é mais lento. A marca da orfandade continua viva nele, manifestando-se na forma como lida com a amizade, o medo, o poder e, principalmente, a lealdade. Ele valoriza profundamente aqueles que escolhem ficar ao seu lado. E, com o tempo, constrói aquilo que todo Órfão sonha, uma família escolhida. Ron, Hermione, Hagrid, Sirius Black, Dumbledore, essas figuras vão preenchendo o vazio original, mas de maneira diferente. Não se trata mais de uma dependência infantil, mas de vínculos construídos com base em escolhas, afeto, confiança mútua.
O Órfão, quando amadurece, não busca mais ser salvo. Ele aprende a se proteger, mas também a amar de forma consciente. Harry, ao longo da saga, se torna um símbolo de resistência, de solidariedade, de coragem. Mas, por trás de tudo isso, existe o menino que, um dia, ficou debaixo da escada esperando ser notado. O arquétipo do Órfão não desaparece, ele se transforma.
Por isso, compreender esse arquétipo é tão importante. Todos nós passamos por perdas, por dores que nos arrancam da ilusão de que o mundo nos deve proteção. Todos, em algum momento, sentiremos o chão sumir sob nossos pés. Mas o que fazemos com essa dor é o que define nosso caminho. O Órfão nos convida a assumir nossas feridas, reconhecer nossas vulnerabilidades e, ainda assim, seguir em frente. E, quem sabe, no meio do caminho, encontrar a força que nasce justamente de ter sobrevivido à ausência.
No fundo, o arquétipo do Órfão nos lembra que a solidão não precisa ser destino. Pode ser ponto de partida.
Paz e Luz.