EQUILIBRIVM II: O preconceito escondido por traz das críticas ao trabalho da Anitta.Aproximadamente 6 min. de leitura

Anitta - EQUILIBRIVM II
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Vivemos em um tempo de reações rápidas e julgamentos ainda mais velozes. Basta que uma figura pública de grande alcance, como Anitta, lance um novo projeto para que as redes sociais se transformem em um tribunal a céu aberto, onde a sentença costuma ser proferida antes mesmo da primeira audição completa. Com o recente lançamento de EQUILIBRIVM II, não foi diferente. O que me chama a atenção, no entanto, não é apenas a qualidade técnica da produção que, para qualquer ouvido minimamente atento, é inegável, mas a natureza visceral e quase desesperada das críticas que a cercam.

Para além do debate sobre “gosto musical”, há algo pulsando sob a superfície desses comentários. Como psicanalista, aprendi que o que nos incomoda profundamente no “outro” geralmente diz muito mais sobre nossas próprias sombras e repressões do que sobre o objeto da nossa crítica. No caso de Anitta, o incômodo parece ter atingido um novo patamar ao tocar em feridas que a sociedade brasileira ainda não cicatrizou: O racismo estrutural, o preconceito religioso e o elitismo cultural que insiste em ditar o que é “arte de verdade”.

Se voltarmos ao início da trajetória de Anitta, o alvo principal era o corpo. O funk, com sua batida direta e letras que exalam a realidade pulsante das periferias, sempre foi visto por uma elite intelectualizada como algo “menor”, vulgar ou puramente instintivo. Na psicanálise, podemos dizer que o funk ocupa, no imaginário social, o lugar do Id1, aquele reino das pulsões, do desejo e do corpo que não pede licença para existir. Ao dominar as paradas com o funk, Anitta forçou o Brasil a olhar para um corpo que a “casa-grande” histórica preferia manter escondido na cozinha ou no morro.

Agora, em EQUILIBRIVM II, ela faz um movimento que parece ter irritado ainda mais os seus detratores, ela subiu a régua e mudou o campo de batalha. O álbum não é apenas sobre o corpo, é sobre a alma. Ao trazer referências explícitas e orgulhosas ao Candomblé e à Umbanda, como na densa e belíssima faixa “OKÊ”, Anitta transita do profano ao sagrado com uma naturalidade que fere o superego2 de quem ainda enxerga essas religiões através das lentes distorcidas do preconceito colonial.

O termo “herege”, que circulou com força nas redes, é extremamente sintomático. Ele não é uma crítica técnica ou artística, é um mecanismo de defesa psíquico. Quando alguém rotula a artista dessa forma por celebrar suas raízes espirituais de matriz africana, está, na verdade, tentando silenciar uma identidade que desafia a hegemonia eurocêntrica e cristã que moldou nossa moralidade social. É a tentativa de punir quem ousa ser livre fora dos padrões permitidos.

É curioso observar como as críticas mudam de roupagem ao longo dos anos, mas mantêm a mesma essência repressora. Quando ela era “apenas” a funkeira de Honório Gurgel, o argumento era de que faltava “conteúdo”. Agora que ela entrega um álbum denso, carregado de simbolismos, parcerias sofisticadas com ícones como Alceu Valença, Marina Sena, Luedji Luna e Liniker, e uma narrativa corajosa sobre autoconhecimento e espiritualidade, a crítica se desloca para o campo da “apropriação” ou da “ofensa religiosa”.

O que está escondido por trás dessa resistência é o fenômeno que chamamos de projeção. Projetamos na Anitta a nossa própria dificuldade coletiva em lidar com a diversidade e, principalmente, com a ascensão de quem veio de onde ela veio. O sucesso de uma mulher que não pede desculpas por sua sexualidade e que agora reivindica seu lugar no sagrado é um espelho que reflete o preconceito que muitos preferem fingir que não existe.

Imagine uma sala onde todos estão acostumados com uma única luz, pálida e monocromática. Quando alguém abre uma janela e deixa entrar o sol com todas as suas cores, inclusive as cores que não conhecemos ou que fomos ensinados a temer, a primeira reação de muitos é fechar os olhos e reclamar da claridade. EQUILIBRIVM II é essa janela aberta. Músicas como “Mandinga” e “Caminhador” não são apenas faixas de um álbum, são manifestos de uma identidade que se recusa a ser fragmentada para caber no gosto do outro.

A maturidade artística apresentada neste último lançamento mostra uma mulher que, em termos psicanalíticos, conseguiu integrar suas partes. Ela não deixou de ser a “MC Anitta” que mexe com o desejo e com a batida do morro, mas permitiu que a “Anitta espiritualizada”, consciente de sua ancestralidade, também ocupasse o palco principal. Na vida, todos buscamos esse equilíbrio, esse Equilibrium, entre nossas pulsões mais básicas e nossa busca transcendental por sentido.

As críticas ácidas, muitas vezes carregadas de um moralismo seletivo, revelam uma sociedade que ainda tem medo do “funk” que habita em si mesma e do “sagrado” que não segue o seu manual de instruções. O preconceito contra o trabalho dela é, no fundo, o medo da liberdade alheia. É a resistência em aceitar que o Brasil é feito de tambores, de rezas, de corpos que dançam e de almas que buscam o alto, e que tudo isso pode, e deve, conviver no mesmo altar da nossa cultura.

Validar o trabalho de Anitta em EQUILIBRIVM II não é uma questão de ser fã ou não. É um exercício de alteridade. É permitir que o outro exista em sua totalidade, sem as amarras dos nossos próprios complexos e preconceitos herdados. Que possamos ouvir o som dos tambores sem o filtro do julgamento apressado, encontrando, quem sabe, o nosso próprio ponto de equilíbrio entre o que mostramos ao mundo e o que guardamos no silêncio da nossa alma.

Paz e luz.

 

1 – Id: Conceito introduzido por Sigmund Freud para descrever a instância mais primitiva da psique humana. Ele opera inteiramente sob o “princípio do prazer”, abrigando nossas pulsões biológicas, desejos inconscientes e energias instintivas que buscam satisfação imediata, sem considerar as normas sociais ou a realidade externa.

2 – Superego: Também definido por Freud, o Superego representa a internalização das normas, valores e proibições da sociedade e da cultura (transmitidos inicialmente pelos pais). Ele atua como uma censura moral ou um “juiz” interno, pressionando o indivíduo a se comportar de acordo com ideais de perfeição e gerando sentimentos de culpa quando essas regras são transgredidas.

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