Defesa justa da fé, intolerância religiosa ou racismo religioso?Aproximadamente 4 min. de leitura

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Você já parou para pensar onde termina o amor por uma crença e começa o medo do que o outro acredita? Infelizmente é comum ouvirmos relatos de pessoas que se sentem atacadas em sua essência porque sua forma de se conectar com o sagrado não segue o “manual” da maioria. Mas existe uma linha, muitas vezes invisível, que separa o direito de professar uma fé da necessidade de anular a do próximo.

Defender a própria fé é algo natural e saudável. É uma forma de preservar nossa identidade e aquela sensação de pertencimento que nos dá chão. No entanto, o problema surge quando essa “defesa” se torna uma arma. Quando eu preciso que o seu altar seja destruído para que o meu pareça mais alto, eu não estou mais falando de Deus, estou falando das minhas próprias inseguranças.

Na psicanálise, entendemos que muito do que nos incomoda no outro é, na verdade, uma projeção1 de algo que não conseguimos lidar em nós mesmos. A intolerância religiosa funciona como um espelho invertido: Eu coloco no “diferente” tudo aquilo que considero mau ou impuro, para que eu possa me sentir o detentor da verdade absoluta. É o que Freud2 chamava de “narcisismo das pequenas diferenças”3, onde focamos no detalhe que nos afasta para não termos que encarar as semelhanças que nos unem.

Mas precisamos dar um passo além e encarar uma verdade desconfortável que habita o Brasil: O racismo religioso.

Você já reparou como o tratamento muda dependendo de onde vem a religião?

Se alguém diz que pratica meditação budista, acende incensos para divindades hindus ou segue os preceitos do taoismo, isso costuma ser visto como algo “zen”, intelectualizado ou até “chique”. Existe um respeito quase imediato por essas tradições orientais. Agora, por que quando o ritual envolve um tambor, uma guia no pescoço ou o sagrado de matriz africana, o olhar de muitos muda para o julgamento, o medo ou a agressão direta?

Essa diferença de peso tem nome: É o racismo estrutural operando sob a máscara da religiosidade. O racismo religioso não ataca apenas o dogma, ele ataca o corpo, a história e a ancestralidade negra. Enquanto as religiões orientais foram, de certa forma, “elitizadas” no imaginário ocidental, as religiões de matriz africana continuam sendo alvo de um processo de demonização que vem desde o período da escravidão.

É uma tentativa perversa de manter o controle sobre o que é considerado “civilizado”. Quando alguém ataca um terreiro ou um barracão, essa pessoa não está defendendo a Bíblia ou qualquer outro livro sagrado, ela está projetando um ódio histórico e tentando apagar uma identidade que sobreviveu a séculos de opressão. É a negação da humanidade do outro através da negação da sua fé.

O uso da divindade para validar o preconceito é um dos maiores sintomas de uma alma que adoeceu. Quando usamos o nome de Deus para justificar a exclusão, estamos criando um “deus” à nossa imagem e semelhança, ele fica pequeno, vingativo e intolerante. O verdadeiro sagrado, em qualquer tradição que se preze, deveria ser uma ponte para o reconhecimento da individualidade e das diferenças do “outro”, aceitando que existem perspectivas, culturas e modos de vida distintos dos seus, e não um muro.

O silêncio diante dessas agressões também é um posicionamento. Se nos sentimos confortáveis com a perseguição de uma fé que não é a nossa, estamos comunicando que o nosso respeito tem cor e endereço. E isso é o oposto de qualquer espiritualidade genuína.

Olhar para dentro e questionar: “Por que o sagrado do outro me ameaça tanto?” é um exercício libertador.

A cura para a intolerância não está em convencer o mundo de que a nossa fé é a melhor, mas em entender que o respeito é a base de qualquer convivência ética. No fim das contas, a nossa verdadeira religião é a forma como tratamos quem não acredita nas mesmas coisas que nós.

Sempre se lembre que suas atitudes falam muito mais de você do que suas palavras!

Paz e luz.

 

1 – Projeção: Um mecanismo de defesa onde o indivíduo atribui a outra pessoa sentimentos ou impulsos que são seus, mas que ele não consegue aceitar em si mesmo.

2 – Sigmund Freud (1856–1939) foi um médico neurologista austríaco e o criador da Psicanálise. Ele revolucionou a forma como entendemos a mente humana ao investigar o inconsciente, revelando que grande parte de nossas ações e sentimentos é movida por desejos e memórias que nem sempre percebemos conscientemente. Suas teorias sobre os grupos e a cultura ainda são bases fundamentais para compreendermos como convivemos em sociedade hoje.

3 – Narcisismo das pequenas diferenças: Conceito de Freud que explica como grupos parecidos tendem a se odiar por causa de detalhes mínimos, usando essas diferenças para afirmar sua superioridade.

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