Você já teve a sensação de que, não importa o quanto faça, ainda está em dívida? Aquela voz interna que diz que você poderia ter sido mais produtivo no trabalho, um pai ou mãe mais presente, ou que aquele momento de descanso no sofá é, na verdade, um “crime” contra a sua eficiência? Se essa descrição soou familiar, você não está sozinho. Vivemos em uma era que idolatra a performance, mas, para muita gente, o chicote não vem de fora, ele está guardado dentro da própria mente.
A autocobrança excessiva é como carregar uma mochila cheia de pedras em uma subida que nunca termina. O problema é que, muitas vezes, nem percebemos que fomos nós mesmos que colocamos as pedras ali.
No cotidiano, a autocobrança se manifesta de formas sutis. É a pessoa que revisa um e-mail dez vezes com medo de um erro bobo, ou aquela que, ao receber um elogio, imediatamente pensa: “Eles só dizem isso porque não viram minhas falhas”. Existe um abismo entre o desejo de fazer bem feito e a necessidade patológica de ser perfeito.
A perfeição, aliás, é uma das maiores armadilhas psíquicas. Ela não existe, mas serve como um horizonte que se afasta cada vez que damos um passo. Quem sofre com isso vive em um estado de alerta constante, uma espécie de ansiedade de “ser descoberto” como alguém insuficiente. O lazer deixa de ser prazeroso porque a mente está lá na frente, listando o que deveria estar sendo feito. O corpo para, mas a cabeça continua martelando.
De onde vem essa voz?
Na psicanálise, olhamos para essa cobrança não como um traço de personalidade “esforçada”, mas como uma construção. Nós não nascemos nos odiando por falhar, nós aprendemos isso.
Muitas vezes, essa voz crítica que hoje te pune é um eco de exigências que vieram da infância. Podem ter sido pais muito exigentes, ou o oposto, pais ausentes que fizeram a criança acreditar que, se ela fosse “perfeita”, finalmente seria notada. Com o tempo, essa figura externa que cobra e julga é “engolida” pela nossa própria mente. Passamos a nos tratar da mesma forma que fomos tratados ou como acreditávamos que deveríamos ser para sermos amados.
É o que chamamos de um ideal de ego muito elevado. Criamos uma versão idealizada de nós mesmos, o “Eu Incrível”, e passamos a vida nos punindo por sermos apenas o “Eu Real”, com nossas limitações, cansaços e humanidades.
O processo analítico não é um manual de “como relaxar em dez passos”. É, antes de tudo, um exercício de escuta. Quando você começa a falar sobre suas cobranças, percebe que muitas delas não fazem sentido lógico. Por que você se sente culpado por dormir até mais tarde no domingo se trabalhou a semana toda?
A psicoterapia ajuda a identificar de quem é essa voz que te cobra. É sua mesmo? Ou é do seu chefe, do seu pai, ou de uma sociedade que diz que “tempo é dinheiro”? Ao dar nome aos bois, o peso da mochila começa a diminuir.
Um exemplo comum no consultório é o paciente que se sente um fracasso por não ter atingido uma meta irreal. Na análise, ele começa a perceber que essa meta não era um desejo dele, mas uma tentativa de atender às expectativas de terceiros. Quando ele descobre o que ele realmente quer, a cobrança externa perde a força.
Aprender a lidar com a autocobrança é, essencialmente, aprender a ser compassivo consigo mesmo. Não se trata de mediocridade, mas de realidade. A vida é feita de faltas, de erros e de imprevistos. A psicanálise nos convida a aceitar que não daremos conta de tudo, e que está tudo bem.
Se você sente que a sua régua está sempre alta demais para o seu próprio bem-estar, talvez seja a hora de olhar para essa régua e perguntar: Quem a colocou aí? Redescobrir o prazer de fazer as coisas pelo processo, e não apenas pelo resultado, é o primeiro passo para uma vida com menos culpa e mais fôlego.
Paz e luz.




