A gente vive numa correria, e no meio desse turbilhão, muitas vezes, as emoções ficam emboladas, as lembranças se escondem e o sentir parece um luxo que não podemos pagar. Mas, pense comigo, quantas vezes uma música que toca no rádio, ou que você coloca de propósito, não te transporta na hora para outro lugar, para outro tempo, ou te coloca em contato direto com uma sensação que estava lá, mas que você não conseguia nomear? É sobre esse poder que quero conversar com você hoje.
A música não é só entretenimento. Ela é, para a nossa psique, um verdadeiro portal, uma linguagem não-verbal que nos permite dialogar com as partes mais profundas e menos acessíveis do nosso ser.
Da perspectiva da Psicanálise, o que a música faz é tocar diretamente nos conteúdos do nosso inconsciente. Freud1 nos mostrou que há uma vastidão de impulsos, desejos e memórias reprimidas que influenciam nossa vida de formas que nem percebemos. A música, com sua estrutura simbólica, age como um atalho. Ela não precisa passar pelo crivo da linguagem racional, da palavra articulada, para chegar lá.
Pense no conceito de Sublimação. É aquele mecanismo em que transformamos um impulso ou conflito interno que seria inaceitável em algo socialmente construtivo e valorizado, como a arte. A música é um exemplo primoroso disso. Ela permite que a energia psíquica (a pulsão) que está ali, tensa e precisando de escoamento, encontre um canal de expressão bonito, organizado e, pasme, catártico.
A catarse é esse alívio, essa liberação de afeto que a gente sente quando, por exemplo, chora ouvindo uma canção triste. É como se o som nos desse a permissão para sentir aquilo que estávamos segurando, desobstruindo o fluxo emocional.
O elo mais evidente da música é com a memória, especialmente a memória autobiográfica. Não é à toa que uma canção da adolescência nos faz sentir, por alguns minutos, o cheiro daquele lugar, a euforia daquele tempo, ou a dor daquele primeiro rompimento.
Isso acontece porque a música é processada no cérebro em áreas fortemente ligadas à emoção, como o sistema límbico, que inclui o hipocampo e a amígdala, a mesma área responsável pela codificação das nossas lembranças mais significativas. Quando ouvimos uma música que tem um significado especial, nosso cérebro ativa essas vias neurais simultaneamente, o som, a emoção daquele momento e a lembrança são armazenados juntos. A canção, então, vira um gatilho poderosíssimo.
Imagine que vVocê está em um engarrafamento estressante, e do nada, toca aquela música que sua avó adorava cantar enquanto cozinhava. Instantaneamente, a tensão diminui, e você se conecta a uma sensação de acolhimento e segurança. A música não mudou o trânsito, mas mudou seu estado de espírito ao evocar um afeto positivo guardado.
A capacidade de a música resgatar memórias, muitas vezes as que pareciam perdidas, é tão forte que é amplamente utilizada, com excelentes resultados, na Musicoterapia com pacientes que sofrem de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.
E como a gente pode usar isso de forma mais consciente no dia a dia, quase como um autocuidado psicanalítico?
1 – A Escuta “Espelho” e a Regulação Emocional: Às vezes, quando estamos muito tristes ou irritados, tentamos lutar contra a emoção, e isso só gera mais desgaste. A Psicanálise ensina que, para elaborar, primeiro precisamos reconhecer e dar nome ao que se sente. A música pode ajudar nesse primeiro passo.
Sugestão Prática: Se você está sentindo uma tristeza profunda, experimente ouvir intencionalmente uma música melancólica, mas que você ache bonita e bem elaborada artisticamente. Não para ficar mais triste, mas para validar e acompanhar aquele sentimento. Essa “escuta espelho” pode te ajudar a tocar o fundo da emoção e, paradoxalmente, começar a sentir o movimento para fora dela, a catarse.
2 – O Uso da “Trilha de Transição”: Podemos usar a música para ser o “DJ da nossa mente” e planejar a mudança de um estado emocional para outro.
Sugestão Prática:
Para a Disposição: Vai começar um dia difícil? Crie uma playlist com músicas enérgicas, que te façam sentir poderoso. Use-a como um ritual de ativação.
Para o Relaxamento: Precisa sair do modo “trabalho intenso” para o modo “sono tranquilo”? Crie uma playlist calma e instrumental. Use-a como uma ponte para o descanso, um filtro sonoro que desliga o barulho da rotina.
3 – Montando Seu “Arquivo de Memórias Afetivas”: Crie playlists temáticas não por gênero musical, mas por afeto.
Exemplos de “Trilhas”: “Músicas para Sentir Coragem”, “Músicas que Me Lembram de Quem Eu Sou”, “Músicas que Ajudam a Chorar e Deixar Ir”.
O que acontece: Ao dar um nome de afeto, você está associando a música a um conteúdo interno que precisa ser acessado, e não apenas a um ritmo. É como se você estivesse usando a canção como uma chave para abrir aquela gaveta da psique, acessando um recurso interno que já existe, mas estava esquecido.
A música é um instrumento de trabalho acessível, uma forma de arte que nos permite cifrar, expressar e elaborar conteúdos íntimos e dolorosos de um modo pleno e contínuo. Ela é a prova de que a nossa mente é uma orquestra de impulsos e sentimentos. Aprender a reger essa orquestra, usando o som a nosso favor, é um ato de profundo autocuidado e uma bela forma de fazer terapia, mesmo fora do consultório.
Paz e luz.
1 – Sigmund Freud (1856-1939) foi o fundador da psicanálise e uma das figuras mais influentes do pensamento moderno. Médico austríaco, revolucionou nossa compreensão da mente humana ao propor a existência do inconsciente e desenvolver conceitos como repressão, transferência e projeção. Sua teoria sobre a estrutura da personalidade (id, ego e superego) e os estágios do desenvolvimento psicossexual transformaram profundamente a psicologia e influenciaram diversos campos do conhecimento, da arte à filosofia.




