A Páscoa e seus SímbolosAproximadamente 4 min. de leitura

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Você já parou para pensar por que, todo ano, a gente se vê cercado por coelhos e ovos de chocolate, mesmo que a data tenha um significado religioso tão profundo (o renascimento de Cristo) e, à primeira vista, bem diferente dessas figuras?

No consultório, é comum ouvirmos que as tradições são “apenas costumes”, mas, para a psicanálise, nada é “apenas”. Os símbolos são pontes. Eles ligam o que sentimos lá no fundo, naquele nosso “ponto cego” do inconsciente, com a realidade do dia a dia. A Páscoa, independentemente da sua fé, é o grande arquétipo1 do renascimento. É aquela sensação de que, depois de um inverno rigoroso na alma, algo novo precisa brotar.

Vamos olhar para o ovo. Muito antes do cristianismo, povos como os egípcios e persas já trocavam ovos para celebrar a primavera. Por quê? Porque o ovo é a promessa contida. Ele é a vida que ainda não se manifestou, mas que está ali, pulsando sob uma casca protetora.

Do ponto de vista do nosso amadurecimento emocional, o ovo representa as nossas próprias “couraças”. Sabe aquele comportamento defensivo que a gente cria para não se machucar? Aquela rigidez que nos impede de mudar? A Páscoa nos convida a romper essa casca.

O ovo de chocolate, que hoje é o queridinho do mercado, traz uma camada extra de significado: O prazer. Ele nos lembra que o processo de “nascer de novo”, embora exija esforço para quebrar a casca, deve resultar em algo doce, em uma vida que vale a pena ser degustada.

E o coelho? Como um animal que nem bota ovo virou o símbolo de quem os entrega?

Historicamente, o coelho era o companheiro de Ostara, a deusa germânica da primavera. Ele simboliza a fertilidade, mas não apenas a biológica. Na nossa psique, o coelho representa a capacidade de gerar ideias, de multiplicar afetos e de ser ágil diante das oportunidades de mudança.

Existe até uma lenda cristã muito bonita que diz que um coelho ficou preso no sepulcro de Jesus e foi a primeira criatura a testemunhar a ressurreição. Ele não compreendia o que via, mas sentia a transformação. Às vezes, somos como esse coelho: não entendemos racionalmente por que certas crises acontecem, mas sentimos que algo maior está sendo gestado em nosso silêncio.

Em tempos de redes sociais barulhentas, a Páscoa também nos traz uma lição sobre alteridade. Muitas vezes, vemos discussões acaloradas sobre o “jeito certo” de celebrar ou críticas ao consumismo da data. Como manter a nossa coerência sem perder a ética?

  • Antes de reagir a uma opinião contrária, pergunte-se: “O que na história dessa pessoa a faz ver o mundo assim?”.
  • Entenda que o símbolo que é vazio para você pode ser o suporte emocional de outro.
  • Não aceite críticas genéricas. Busque a origem dos fatos antes de formar sua própria convicção.
  • Se uma discussão te causa um aperto no estômago, pare. A verdade não precisa de gritos para se sustentar.

Avaliar opiniões diferentes de maneira sincera exige que a gente olhe para o nosso próprio ego. Queremos estar certos ou queremos compreender o humano à nossa frente? A ética psicanalítica nos ensina que o respeito ao “sagrado” do outro, seja ele religioso ou não, é a base para qualquer convivência saudável.

A Páscoa não é um evento de um domingo só. Ela é um lembrete de que a vida é feita de ciclos de morte e renascimento. Às vezes, precisamos deixar morrer um velho hábito, uma mágoa antiga ou uma imagem idealizada de nós mesmos para que o novo possa ocupar espaço.

Os símbolos (o ovo, o coelho, o chocolate) estão aí, mesmo que vindo de origens diferentes da Cristã, para nos dizer que a renovação é possível, que a doçura pode vir após o sacrifício e que a vida sempre encontra um jeito de romper a casca.

Que tal usar este período para refletir sobre quais “ovos” você precisa chocar e quais cascas já estão prontas para serem deixadas para trás?

Paz e luz.

 

1 – Arquétipo: Na psicologia analítica de Carl Jung, um arquétipo é um padrão universal de pensamento, imagem ou símbolo presente no inconsciente coletivo da humanidade. São como “moldes” psíquicos que se manifestam em mitos, sonhos, religiões e, claro, nos símbolos do nosso dia a dia, como o renascimento da Páscoa. Eles nos ajudam a dar sentido à experiência humana de forma universal.

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