A Psicanálise dos Contos de Fadas: A Lebre e a TartarugaAproximadamente 4 min. de leitura

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A história da lebre e da tartaruga é curta, direta e, ao mesmo tempo, uma cápsula rica de sentidos. Na superfície parece apenas uma lição moral, “devagar se vai ao longe”, mas quando olhamos com atenção psicanalítica, vemos conflitos internos, mecanismos de defesa e modos diferentes de relação com o desejo e o frágil tecido do tempo. A fábula é atribuída a Esopo1 e entrou no repertório ocidental com várias reescritas e imagens ao longo dos séculos.

Primeiro, vamos simplificar os personagens:

A lebre representa o modo impulsivo, veloz e autoconfiante, alguém que confia em habilidades inatas e subestima o outro.

A tartaruga, por sua vez, encarna a persistência, a constância e, simbolicamente, um ego mais sólido, ainda que lento.

Na leitura psicanalítica, a lebre pode ser vista como uma configuração narcísica, sua rápida superioridade e o cochilo no meio da corrida sugerem a armadilha da grandiosidade e da autossabotagem. Já a tartaruga demonstra um self2 que sustenta o desejo passo a passo, sem se deixar abalar pela pressa externa ou pela humilhação.

Se aproximarmos a fábula do conceito de tempo psíquico, surge uma leitura rica. A lebre vive no tempo do instante, busca a vitória rápida, espera gratificação imediata e, ao sentir-se segura, abandona o trajeto. A tartaruga, no entanto, opera no tempo da perseverança, o trabalho repetido, o esforço contínuo e a tolerância à frustração. Para a psicanálise, essas duas temporalidades são modos de lidar com o desejo e a ansiedade, onde uma se afoga na pressa e no excesso de confiança, enquanto a outra administra a ansiedade pela via da rotina e do preparo. Assim, a vitória da tartaruga não é apenas moralidade popular, é uma demonstração prática de que um ego que tolera atrasos e pequenas derrotas pode, paradoxalmente, chegar mais longe.

Há também um elemento de “performatividade social” na fábula. A lebre ri, provoca, pede plateia, ela precisa do olhar do outro para validar sua superioridade. A tartaruga, desprovida do espetáculo, envia um gesto mínimo, o desafio e o cumprimento do trajeto. Em termos transferenciais, a lebre exige reconhecimento e reage mal à perda de prestígio já a tartaruga se apoia numa ética do fazer que independe do aplauso. Do ponto de vista terapêutico, isso aponta para intervenções que trabalham a tolerância à frustração, a construção de disciplina interna e a diminuição da dependência do espelho social.

Um aspecto interessante é a ambiguidade moral da fábula, não é uma apologia à lentidão, nem uma condenação definitiva da velocidade. Autores e ilustradores ao longo do tempo reinterpretaram a história, às vezes enfatizando que a vitória é resultado da arrogância da lebre, outras vezes, problematizando a figura da tartaruga como excessivamente conivente com um status quo que exige sacrifício. Essa pluralidade de leituras é saudável, os contos de fada, e as fábulas, funcionam como espelhos múltiplos onde cada leitor projeta dilemas próprios.

Na prática clínica, a lição mais proveitosa talvez seja a chamada “ética do passo a passo”, pequenas ações repetidas, compromisso com a rotina e a diminuição da busca ininterrupta por validação externa. Trabalhar com pacientes que vivem no modo-lebre envolve nomear a pressa como defesa, por trás da corrida pode haver medo do fracasso, insegurança existencial ou intolerância ao tédio. Com pacientes no modo-tartaruga, o trabalho pode ser outro reconhecer conquistas, evitar a estagnação mascarada de prudência e abrir espaço para pequenas acelerações quando saudáveis.

A fábula da lebre e da tartaruga continua potente porque fala de modos de ser diante do tempo e do desejo. Não nos pede uma escolha simplista entre velocidade e lentidão, mas convida a olhar para como cada um de nós administra forças internas, a pressa do narcisismo e a firmeza da perseverança. No divã, como na corrida, a questão não é só chegar em primeiro lugar, mas aprender a andar na própria medida, reconhecendo quando a pressa é defesa e quando a lentidão é estratégia.

Paz e luz.

 

1 – Esopo foi um narrador da Grécia Antiga, tradicionalmente associado à criação de diversas fábulas que atravessaram séculos. Embora pouco se saiba com certeza sobre sua vida, seu nome tornou-se sinônimo de histórias curtas que utilizam animais para transmitir reflexões sobre comportamentos humanos e dilemas morais.

2 – O termo “self” é usado na psicologia para se referir ao senso de identidade que a pessoa desenvolve ao longo da vida — a maneira como ela se percebe, se organiza internamente e sustenta suas próprias escolhas, desejos e limites.

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