O Gato de Botas fala de um gato esperto que transforma a sorte do seu dono pobre e, ao mesmo tempo, é uma máquina de imagens e sentidos. No terreno psicanalítico, o conto nos dá um mapa curto e preciso sobre desejo, celebração da astúcia e as maneiras como a criatividade encontra caminhos para a sobrevivência social. Aqui tento destrinçar essa história como se estivéssemos em uma conversa, algo direta e sem termos rebuscados, mas com o devido cuidado teórico.
Comecemos pelo enredo básico: Um filho recebe apenas um gato como herança. O animal, ao invés de ser um simples bicho de estimação, toma a iniciativa, ele pede botas, aprende a caçar, engana poderosos, e, por fim, garante ao seu dono terras, título e casamento vantajoso. O que chama atenção não é só a esperteza do gato, mas o modo como essa esperteza substitui e resolve faltas na vida humana, sobretudo a falta de status, de poder ou de proteção paterna.
Do ponto de vista simbólico, o gato funciona como um “auxiliar” psíquico. Na linguagem cotidiana é a parte de nós que sabe negociar com o mundo quando outras partes estão exauridas ou incapazes. Em termos menos técnicos, pense naquele recurso inventivo que aparece quando tudo parece perdido, a piada que quebra o gelo, o gesto inesperado que abre uma porta. O conto personifica essa capacidade em um animal e, ao torná-lo falante, nos dá permissão para enxergar e valorizar esse traço.
Há também uma leitura sobre transferência e substituição, o gato assume papéis que, na vida social, caberiam a um protetor ou mentor. Isso é especialmente sensível se lembrarmos que o herdeiro é pobre e, portanto, “sem lugar”. O animal funda o lugar social do homem através de truques que duplicam a realidade, usando falsos títulos e apresentações encenadas, por exemplo. Freud1 já nos lembra que a cultura é, em grande parte, uma série de representações que atribuem valor às coisas. Aqui, o valor é encenado, e o conto nos permite aceitar essa encenação como eficaz. A lição? O símbolo pode alterar destino quando é bem apresentado.
Outro ponto que o conto enfatiza é a ambivalência moral. O gato mente, engana e manipula. Ainda assim, recebe aprovação narrativa. Isso abre espaço para pensar em como a ética popular muitas vezes premia a esperteza quando ela serve à sobrevivência ou à mobilidade social. Psicanaliticamente, podemos relacionar isso a mecanismos como a racionalização ou a sublimação, ações socialmente ambíguas ganham sentido quando produzem uma ordem desejada, sendo ela proteção, casamento ou reconhecimento, para citarmos alguns exemplos. O conto não celebra a violência, celebra a eficácia simbólica.
O tema da linguagem também é central. O gato fala, negocia e narra, ou seja, ele traduz uma realidade crua em discurso. Na clínica, às vezes encontramos pacientes que “traduzem” suas dificuldades em narrativas criativas, o conto faz o mesmo. Essa transformação do brado em teatro é uma das funções terapêuticas mais poderosas, falar sobre algo, encenar, mentir poeticamente e, assim, reorganizar uma posição no mundo.
Uma anedota ajuda a iluminar: Imagine um jovem sem recursos que grava vídeos engraçados sobre sua rotina e, com isso, conquista visibilidade e oportunidades profissionais. Não é diferente do Gato de Botas, onde a criatividade compensa uma falta inicial e abre portas que títulos formais não abririam. A diferença é que, no conto, essa criatividade é externalizada como outro ser, um artifício narrativo que nos deixa mais confortáveis com a ideia de “ajuda externa”.
Também vale observar a dimensão do desejo. O herdeiro, ao final, alcança casamento e riqueza, desejos clássicos em contos de fadas. Mas o que parece ser uma conquista individual é, na história, uma conquista mediada, o sujeito não sobe sozinho, sobe com a ajuda do que está fora dele, neste caso o gato. Esse detalhe nos lembra que nossos impulsos raramente se realizam sem mediação simbólica, lidamos com relações, narrativas e estratégias.
Por fim, a moral implícita é dupla, por um lado, há um convite à valorização da inteligência prática, saber ler situações, improvisar. Por outro, existe um alerta, as façanhas simbólicas não transformam o mundo de maneira absoluta, elas reestruturam posições sociais através de aparências e alianças. Em psicanálise, isso nos leva a pensar sobre como lidamos com as faltas originais: Criamos substitutos, histórias e gestos que nos posicionam de novo.
O Gato de Botas funciona como uma fábula da mediação simbólica. Ele nos mostra que a criatividade, representada por um outro que age por nós, pode transformar destino, desde que saiba falar a língua do poder e do desejo social. Mais do que ensinar astúcia, o conto nos convida a reconhecer as estratégias que usamos para existir em um mundo que exige apresentação e persuasão. E, talvez, nos lembra de que a vida psíquica é sempre, em certa medida, uma fábula que contamos para nós mesmos e para os outros.
Paz e luz.
1 – Sigmund Freud (1856-1939) foi o fundador da psicanálise e uma das figuras mais influentes do pensamento moderno. Médico austríaco, revolucionou nossa compreensão da mente humana ao propor a existência do inconsciente e desenvolver conceitos como repressão, transferência e projeção. Sua teoria sobre a estrutura da personalidade (id, ego e superego) e os estágios do desenvolvimento psicossexual transformaram profundamente a psicologia e influenciaram diversos campos do conhecimento, da arte à filosofia.




