A Psicanálise dos Contos de Fadas: O Soldadinho de ChumboAproximadamente 4 min. de leitura

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Há algo de duramente terno no Soldadinho de Chumbo, um boneco de uma perna só que ama à distância uma bailarina de papel, enfrenta tempestades, ratos, peixes e o fogo final. A simplicidade do enredo de Hans Christian Andersen convive com uma densidade simbólica que rende leituras psicanalíticas sobre desejo, limitação, coragem e a forma como a criança lida com o que falta. Nesta leitura, tento abrir o conto sem jargões, mostrando como os detalhes narrativos encenam um drama interior.

Em primeiro lugar: O soldadinho como figura do sujeito incompleto. Ser “o último fundido”, ficar com uma perna só, não é apenas um pormenor físico, é um sinal narrativo de falta. Na psicanálise, a falta não é só uma ausência, ela estrutura o desejo. O soldado que insiste na sua verticalidade apesar da imperfeição encarna uma postura de resistência, mantém-se ereto, fiel ao que ama, mesmo quando o mundo o empurra. Leituras críticas já associaram essa insuficiência à sensação de inadequação do próprio Andersen, mas, de modo mais geral, o soldadinho funciona como imagem do sujeito que se reconhece deficiente e, ainda assim, encontra um sentido ético na sua constância.

A bailarina de papel é outro espelho simbólico. Frágil, graciosa e imóvel, ela parece por um instante espelhar o soldado, ambos “em pé” sobre uma perna. Há aqui um jogo de identificação e idealização, o amante projeta nela não só beleza, mas também uma equivalência que o mundo nega. A relação é platônica e impossível, a narrativa reforça isso com os obstáculos externos, passando pelo palhaço-jack-in-the-box, a queda da janela, o barco de papel, que funcionam tanto como provas quanto como testes do laço psíquico.

O percurso do soldado, da mesa ao esgoto, do estômago do peixe de volta à sala, até o fogo, lê-se também como uma travessia simbólica de interioridades. Em termos psicanalíticos, são etapas de prova, a passagem pela água evoca descarga afetiva e regressão, a ameaça dos ratos toca no pavor infantil do predador, e a combustão final na lareira fala de uma passagem transformadora. A morte pelo fogo, que consome tanto o soldadinho quanto o adereço da bailarina, pode ser vista como metáfora de um destino “onde está o desejo” sacrificial, o metal que derrete transforma-se em coração, sinal paradoxal de que o gesto final é, ao mesmo tempo, destruição e síntese afetiva.

Importante notar o papel do olhar e da imobilidade. O soldado observa incessantemente a bailarina, ele não fala, age pouco e sua fidelidade é proveniente sobretudo de uma constância interior. Em termos clínicos, essa passividade revela modos de assumir o sofrimento sem elaborar verbalmente o luto ou a frustração, uma forma de resistência que pode ser tanto heroica quanto patológica. Andersen, que frequentemente escreveu sobre exclusão e melancolia, coloca aqui a questão: O que faz do sujeito uma figura “heroica”? A resignação ou a capacidade de manter-se fiel a um objeto interno? A resposta do conto é ambígua, há nobreza, mas também um destino trágico.

Para além da leitura individual, o conto fala com pais, educadores e com qualquer um que lide com a infância, os brinquedos narram fantasias e medos, são instrumentos de simbolização. O movimento do soldadinho no mundo humano, empurrado por mãos de menino, rodopios de crianças, crueldades acidentais, lembra que a construção do eu passa por choques e pela necessidade de integrar perdas. Em consultório, não raro, peças aparentemente insignificantes, como um brinquedo quebrado ou uma brincadeira interrompida, carregam histórias de limitação, inveja ou desejo não correspondido. Ler Andersen com olhos clínicos ajuda a reconhecer que mesmo a fantasia infantil instrumenta narrativas de luto e desejo.

O Soldadinho de Chumbo nos convida a olhar a falta com outro ângulo. Ele nos lembra que imparidade não significa ausência de valor, que o amor pode ser constância e sacrifício, e que o caminho do sujeito passa por travessias humilhantes, ternas, transformadoras. A cena final, em que um pequeno coração de metal permanece como vestígio, não apaga a violência do fogo, mas nomeia uma verdade possível: Do ardor nasce uma forma singela de permanência. Ler este conto psicanaliticamente é, portanto, aprender a escutar o silêncio dos brinquedos como se ouvissem uma história muito humana.

Paz e luz.

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