Comunicação Não-Violenta: Como expressar suas necessidades sem atacar o outroAproximadamente 4 min. de leitura

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Sabe aquela conversa que já começa torta? Aquela em que você sente o peito apertar e, antes que possa raciocinar, uma frase atravessada escapa da sua boca? Pois é. A gente vive repetindo que “falou sem pensar”, mas a psicanálise nos ensina algo um pouco diferente: A gente falou, sim, impulsionado por algo muito antigo e profundo, que raramente paramos para examinar.

Hoje eu quero te convidar a olhar para a Comunicação Não-Violenta (CNV) não apenas como um manual de “como falar bonito”, mas como uma ferramenta psíquica poderosa para desarmar as defesas que construímos ao longo da vida.

Marshall Rosenberg, o criador da CNV, nos deu um mapa. Mas, para usar esse mapa, precisamos entender o terreno: A nossa mente.

Quando atacamos alguém, seja com gritos, ironias ou aquele silêncio punitivo que dói mais que tapa , não estamos, na verdade, reagindo ao que a pessoa fez agora. Estamos reagindo a uma dor interna. Na clínica, vejo isso com alguma frequência. O marido que grita porque a esposa atrasou dez minutos não está bravo com o relógio, ele está apavorado com a sensação de desamparo, de não ser prioridade, uma ferida narcísica que talvez ele carregue desde a infância.

Atacamos o outro para nos proteger, é um mecanismo de defesa. Projetamos no parceiro, no amigo ou no chefe a culpa pelo nosso desconforto. A CNV propõe uma inversão radical dessa lógica: E se, em vez de acusar o outro pelo que sinto, eu assumisse a responsabilidade pela minha própria necessidade?

A teoria é linda, mas na hora da raiva, a gente esquece o roteiro. Por isso, vamos simplificar e entender a lógica emocional da coisa.

1 – Observar sem julgar (A técnica do espelho): Aqui é onde a maioria de nós tropeça. A gente não diz: “Você deixou a toalha na cama”. A gente diz: “Você é bagunceiro e não me respeita”. Percebe a diferença? A primeira frase é um fato, uma fotografia da realidade. A segunda é um julgamento moral carregado da sua interpretação.

Para a psicanálise, isso é crucial. Quando julgamos, estamos colando no outro um rótulo que diz mais sobre a nossa intolerância do que sobre a ação dele. O primeiro passo é virar o espelho: O que realmente aconteceu, despido dos meus achismos?

2 – Nomear o sentimento (Sair do racional): Nós somos analfabetos emocionais. Quando pergunto “o que você está sentindo?”, muitos pacientes respondem “sinto que fui traído”. Isso não é sentimento, é pensamento. Sentimento é visceral: Medo, tristeza, raiva, alegria, frustração.

Expressar vulnerabilidade é difícil porque, para o nosso inconsciente, vulnerabilidade rima com perigo. Mas a mágica da CNV acontece aqui: quando você diz “eu estou com medo” ou “eu me sinto triste”, o outro baixa a guarda. É quase impossível atacar alguém que está admitindo a própria dor sem acusar ninguém.

3 – Identificar a necessidade (O buraco no peito): Aqui chegamos à raiz psicanalítica da questão. Todo sentimento negativo é um alarme de que uma necessidade não foi atendida. Pode ser necessidade de segurança, de afeto, de ordem, de descanso.

O problema é que crescemos acreditando que ter necessidades é “feio” ou “carente”. Então, em vez de dizer “preciso de atenção”, dizemos “você nunca larga esse celular”. Transformamos nossa falta em uma crítica. Reconhecer do que você precisa é um ato de coragem e autoconhecimento.

4 – O pedido (Claro e possível): Não adianta esperar que o outro tenha bola de cristal, essa é uma fantasia infantil de onipotência, de achar que a mãe, ou o mundo, deve adivinhar o que o bebê quer. Adultos precisam pedir, e pedir de forma concreta.

    Em vez de “quero que você me valorize”, que é vago e abstrato, tente “gostaria que pudéssemos jantar juntos sem eletrônicos uma vez por semana”. Isso é negociável. Isso é real.

    Não se iluda achando que é a coisa mais fácil do mundo, aplicar isso exige treino. Exige ir contra a correnteza do nosso ego que quer ter razão a todo custo. A comunicação violenta é viciante porque ela nos dá uma falsa sensação de poder momentâneo enquanto a Não-Violenta nos pede humildade.

    Haverá dias em que você vai falhar, vai gritar, vai julgar. E está tudo bem. A culpa excessiva também é uma forma de violência consigo mesmo. O importante é a intenção de reconectar.

    Quando você consegue dizer: “Olha, quando você chegou atrasado (fato), eu fiquei muito ansioso (sentimento) porque tenho necessidade de segurança e previsibilidade (necessidade). Será que da próxima vez você pode me avisar se for demorar? (pedido)”, você não está apenas resolvendo um conflito.

    Você está convidando o outro a enxergar o ser humano que existe por trás da sua armadura. E é nesse lugar, onde as armaduras caem, que o verdadeiro encontro acontece.

    Paz e luz.

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