Diferença entre Discurso e AçãoAproximadamente 4 min. de leitura

diferença entre fala e ação
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Sabe aquela sensação estranha de que algo não encaixa quando ouvimos certas promessas? Você olha para a pessoa, as palavras são bonitas, carregadas de boas intenções e até emocionam. Mas, quando olhamos para a realidade prática daquela vida ou daquela gestão, os fatos parecem contar uma história completamente diferente. Na psicanálise, dizemos que existe um abismo entre o que o sujeito “fala” e a sua “posição subjetiva”, em outras palavras perceber a distância entre o que se diz e o que se faz.

Essa discrepância é mais comum do que imaginamos e não acontece apenas com os outros, acontece conosco também. No entanto, quando falamos de figuras públicas e líderes, esse fenômeno ganha proporções que afetam a coletividade.

A palavra tem um poder sedutor. Ela é capaz de construir mundos, projetar ideais e, principalmente, criar uma imagem de nós mesmos que gostaríamos que os outros comprassem. O discurso é, muitas vezes, uma ferramenta de defesa ou de marketing pessoal. Através dele, tentamos convencer o mundo de que somos éticos, altruístas e preocupados com o bem comum.

O problema surge quando o discurso vira um fim em si mesmo. Para muitos, falar sobre um valor, como a honestidade ou a empatia, substitui o esforço real de praticá-lo. É como se, ao dizer “eu me importo com você”, a pessoa sentisse que já cumpriu sua obrigação moral, sem precisar mover um dedo para ajudar. A ação, por outro lado, é silenciosa e exige gasto de energia e tempo. Ela não aceita maquiagem.

Imagine um gestor que faz discursos inflamados sobre a importância da saúde mental e do equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Ele é aplaudido, posta frases motivacionais nas redes sociais e ganha prêmios de liderança. No entanto, no dia a dia da empresa, ele sobrecarrega sua equipe, ignora pedidos de ajuda e utiliza a pressão psicológica como método de controle. Aqui, o discurso serve apenas como uma cortina de fumaça para evitar que ele seja confrontado com sua própria rigidez.

No campo público, vemos isso o tempo todo. Figuras que se apresentam como paladinos de certas causas, mas cujas trajetórias e escolhas práticas mostram um total descompromisso com esses mesmos princípios. O discurso é usado para capturar a atenção e o afeto das pessoas, enquanto a ação serve a interesses bem menos nobres. O perigo é que, como seres humanos, temos uma tendência a acreditar na narrativa mais bonita, temos tendencia de acreditar naqueles que falam o que queremos ouvir, ignorando os sinais de que a prática está indo na contramão.

Para não cairmos em armadilhas, precisamos aprender a “ler” além do que é dito. Existem alguns sinais que ajudam a identificar quando o discurso é apenas uma casca vazia:

  • A recorrência do “Eu”: Discursos muito focados na própria imagem de “bondade” ou “perfeição” geralmente escondem uma falta de entrega real. Quem faz, raramente precisa anunciar o tempo todo que está fazendo.
  • A prova do tempo: O discurso é imediato, mas a ação se prova no longo prazo. Observe se as atitudes da pessoa se mantêm coerentes quando as luzes se apagam ou quando não há ninguém olhando.
  • O impacto nos outros: Olhe para quem está ao redor dessa pessoa ou dessa figura pública. Eles estão crescendo? Estão sendo respeitados? Se o entorno está sofrendo, o discurso de cuidado é falso.
  • A dificuldade em admitir erros: Quem vive de discurso tem pavor de falhar, pois a falha quebra a imagem idealizada. Quem vive de ação sabe que errar faz parte do processo e busca corrigir o rumo.

Viver em total harmonia entre o que pensamos, falamos e fazemos é um desafio constante e, talvez, um ideal nunca plenamente alcançado. Todos temos nossas pequenas contradições. O problema real não é a imperfeição, mas a instrumentalização da palavra para enganar o outro.

Quando começamos a valorizar mais o que as pessoas fazem do que o que elas prometem, passamos a ter relações mais saudáveis e a fazer escolhas mais conscientes, seja na nossa vida privada ou na nossa participação na sociedade. Afinal, as palavras podem até ser levadas pelo vento, mas os frutos das nossas ações são o que realmente fica plantado no mundo.

Paz e luz.

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