Sabe aquela sensação de ter a cabeça cheia, um verdadeiro turbilhão de pensamentos e emoções que não te dão sossego? O mundo moderno, com seu ritmo frenético e a enxurrada de informações, tem nos afastado do nosso centro, daquele lugar de paz e clareza dentro de nós. Mas, o que te diria se a solução para acalmar essa bagunça interior pudesse estar em algo tão simples e ancestral quanto desenhar um círculo?
É aí que entra a Mandala, a palavra de origem sânscrita, significa literalmente “círculo” ou “centro”. Para além do seu uso milenar nas tradições orientais como um diagrama cósmico de representação do universo, a mandala ganhou um significado profundo e transformador na Psicologia Analítica, especialmente através do trabalho de Carl Gustav Jung1.
Jung, o pai da Psicologia Analítica, descobriu o poder curativo das mandalas de uma forma bem pessoal. Durante um período de grande desorientação e crise interna, ele começou a desenhar círculos de forma espontânea. Ele percebeu que essas imagens circulares eram uma espécie de “fotografia” do seu estado psíquico naquele momento, atuando como um fator organizador e ordenador do seu caos interior.
Para a Psicanálise de base Junguiana, a mandala é o principal símbolo do Self. E o que é o Self, afinal?
Não confunda Self com o “Eu” (o Ego). O Self é o conceito de totalidade da personalidade, o centro organizador da nossa psique, a união do consciente e do inconsciente. É a nossa essência mais profunda, o nosso potencial de ser quem realmente somos. Quando criamos ou contemplamos uma mandala, estamos, de maneira simbólica, nos conectando com esse centro. É como se o ato de desenhar o círculo, com o seu ponto central e sua simetria, refletisse o impulso inato da psique de buscar a totalidade e a integração.
Centro: Representa a fonte, a essência, a unidade. É o ponto de onde tudo se origina e para onde tudo converge.
Círculo: Simboliza a totalidade, o universo, a proteção e o sagrado. Ele delimita um espaço interior seguro, separando-o da desordem do mundo exterior.
Quando nossa vida está “quadrada”, cheia de tensões e polaridades não resolvidas, a psique, através do arquétipo do Self, pode projetar a necessidade de retorno ao centro na forma circular da mandala, buscando a harmonização desses opostos (consciente/inconsciente, luz/sombra). É um convite à Individuação, o processo de se tornar um ser individual e indivisível, completo.
Desenhar uma mandala, ou até mesmo colorir uma já pronta, não é apenas um passatempo artístico. É uma forma de meditação ativa.
Pense bem: Quando você está focado em criar um padrão simétrico, em escolher as cores, em preencher os espaços com atenção e paciência, sua mente faz o quê? Ela se acalma.
O ato repetitivo e focado nos detalhes, a necessidade de manter o equilíbrio visual e a simetria, exige uma concentração suave. Essa concentração tira o foco do turbilhão de pensamentos ansiosos sobre o passado ou o futuro e te ancora no presente. É um silêncio da mente alcançado pela ação, o que é especialmente útil para quem tem dificuldade em se sentar e ficar em silêncio na meditação tradicional.
Ao criar sua própria mandala de forma espontânea, sem pensar muito, você está dando ao seu inconsciente um canal de expressão não-verbal. As formas que surgem, as cores que você escolhe, a disposição dos elementos, tudo isso é um símbolo que reflete o seu mundo interior.
Por exemplo, um paciente que desenha formas muito pontudas e cores escuras no centro da mandala pode estar expressando uma agressividade ou uma tensão interna que ele não consegue verbalizar. Depois, ao olhar para a imagem e nomeá-la, ele pode ter um insight valioso sobre o seu estado emocional. A mandala se torna, então, um espelho e um mapa da psique.
Como começar na prática:
- Pegue um papel e um lápis. Não precisa ser um artista;
- Desenhe um círculo, pode usar um compasso ou um pires;
- A partir do centro, comece a traçar linhas, formas geométricas ou símbolos que venham à sua mente, de forma intuitiva;
- Use as cores que você sente que deve usar;
- Deixe fluir.
O mais importante é a entrega ao processo, não a perfeição do resultado final.
Ao fim da criação, contemple-a. Que nome você daria a ela? O que as cores e as formas te fazem sentir? Essa reflexão simples é a porta de entrada para um autoconhecimento profundo.
A mandala é muito mais do que um desenho bonito. É um instrumento de cura e um recurso ordenador da psique à nossa disposição. É uma linguagem silenciosa que fala sobre quem somos, onde estamos e para onde o nosso Self está nos guiando. Ao nos dedicarmos a essa simples prática de desenhar círculos, estamos, na verdade, embarcando na mais importante de todas as jornadas, a busca pela nossa inteireza e pela paz interior.
É a maneira da nossa alma nos dizer: “Volte para o centro, a resposta está aqui.”
Paz e luz.
1 – Carl Gustav Jung (1875-1961): Psiquiatra suíço e fundador da Psicologia Analítica. Jung expandiu a compreensão do inconsciente, introduzindo conceitos como arquétipos e o inconsciente coletivo, e enfatizou a importância dos símbolos e da jornada individual de autoconhecimento.




