O processo de Individuação: a jornada de se tornar quem você realmente éAproximadamente 5 min. de leitura

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Sabe aquela sensação estranha, que às vezes bate no meio de uma tarde comum, de que você está vivendo a vida de outra pessoa? Ou aquele cansaço que não é físico, mas que vem do esforço tremendo de manter uma “aparência” que já não cabe mais em quem você se tornou?

Pois é. Se você já sentiu isso, saiba que não está sozinho. E, mais importante, isso não é necessariamente um problema. Na visão da psicologia analítica, esse desconforto é muitas vezes um chamado. É a psique batendo na porta e dizendo: “Ei, tem mais gente aqui dentro precisando se expressar”.

Carl Gustav Jung, o pai da psicologia analítica, chamou o caminho para responder a esse chamado de Processo de Individuação.

Pode parecer um termo complicado, mas a ideia é belíssima e muito prática: É a jornada de se tornar um ser humano inteiro. Note que eu disse “inteiro”, e não “perfeito”. Existe uma grande diferença nisso, e é sobre ela que vamos conversar hoje.

O que é a Individuação? E o que ela não é?

Muita gente confunde individuação com individualismo. Não tem nada a ver. O individualismo é o ego gritando “eu primeiro”. A individuação é o Self, o nosso centro mais profundo, sussurrando “nós somos complexos”.

Individuar-se significa descascar as camadas daquilo que nos disseram que deveríamos ser, para revelar quem realmente somos.

Imagine que, desde criança, para sermos aceitos e amados, fomos construindo uma máscara. Jung chamou isso de Persona. A Persona é necessária, é ela que nos permite viver em sociedade, ter um emprego, sermos educados na fila do banco. O problema começa quando colamos essa máscara no rosto e esquecemos que existe alguém por trás dela. Acreditamos que somos o cargo que ocupamos ou o papel familiar que desempenhamos.

O processo de individuação começa quando essa máscara racha.

Para nos tornarmos quem somos, precisamos olhar para onde evitamos olhar a vida toda, a nossa Sombra, aquele tesouro escondido no nosso porão.

Eu sei, o termo soa meio assustador, como algo saído de um filme de suspense. Mas na clínica, a Sombra de outra forma. Ela é tudo aquilo que varremos para debaixo do tapete porque não combinava com a nossa “Persona de boa pessoa”.

Lá estão, sim, nossos defeitos, nossas raivas, nossas invejas e egoísmos. Mas, e aqui está o segredo que muda tudo, na Sombra também está o nosso ouro.

Muitas vezes, jogamos na Sombra a nossa criatividade, a nossa assertividade, a nossa capacidade de dizer “não”, a nossa espontaneidade. Tudo isso foi reprimido para nos adaptarmos. A individuação exige que desçamos até esse porão escuro para resgatar essas partes. Não para nos tornarmos pessoas ruins, mas para nos tornarmos pessoas reais. Uma pessoa que nunca reconhece sua capacidade de sentir raiva não é pacífica, é inofensiva. E existe uma grande diferença aí.

Esse processo não acontece da noite para o dia. Jung observou que a vida humana geralmente se divide em duas grandes etapas, com objetivos bem diferentes.

A Primeira Metade da Vida: Aqui, o foco é a expansão. Precisamos construir um ego forte, sair da casa dos pais, encontrar uma carreira, formar relacionamentos, conquistar nosso lugar no mundo. É a fase de construir a Persona e fortalecer a casca da noz.

A Metade da Vida, e a tal da crise: Geralmente entre os 35 e 50 anos, algo muda. As conquistas externas já não preenchem tanto. O carro novo ou a promoção trazem uma alegria que dura pouco. É aqui que a “crise” de meia-idade costuma aparecer. Mas, na visão junguiana, isso não é uma crise, é uma convocação. É a vida dizendo: “Ok, você já provou que consegue sobreviver. Agora, você consegue viver com significado?”.

A Segunda Metade da Vida: É o momento do retorno. O foco muda do externo para o interno. É a hora da integração. De aceitar que não somos heróis infalíveis, de fazer as pazes com nossas limitações e de integrar aqueles conteúdos que deixamos na Sombra. É aqui que a individuação ganha força total.

Você pode estar se perguntando: “Se é o caminho natural, por que dói tanto?”.

Dói porque o ego detesta perder o controle. O ego quer garantias, quer certezas. A individuação pede confiança no desconhecido. Enfrentar nossos medos, nossos complexos e nossas histórias mal resolvidas exige uma coragem tremenda.

É por isso que sintomas como ansiedade ou sentimentos de vazio aparecem. Eles não são inimigos, são a febre que indica que o corpo psíquico está lutando para curar uma infecção de inautenticidade.

O objetivo final da individuação não é a felicidade constante, isso é promessa de comercial de margarina. O objetivo é a totalidade.

Ser inteiro significa que você é capaz de transitar por todas as suas emoções sem ficar refém delas. Significa que você conhece seus demônios pelo nome e, em vez de fugir deles, convida-os para um chá, descobrindo o que eles têm a ensinar.

Quando você se torna quem realmente é, a necessidade desesperada de aprovação externa diminui. Você se torna mais tolerante consigo mesmo e, paradoxalmente, muito mais tolerante com o outro. Afinal, quem conhece a própria escuridão não julga tão facilmente a escuridão alheia.

Essa é a jornada mais importante que você pode fazer. Ela não tem um mapa pronto, pois o seu caminho é único, só seus pés podem moldá-lo. Mas garanto a você, vale cada passo.

Porque, no fim das contas, o privilégio de uma vida é se tornar quem você verdadeiramente é.

Paz e luz.

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