O que são arquétiposAproximadamente 6 min. de leitura

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Já se perguntou por que certas narrativas, personagens ou até mesmo sonhos parecem tocar uma fibra tão profunda dentro de você, mesmo que nunca tenha vivido algo semelhante? Aquela sensação de reconhecimento imediato ao se deparar com a jornada de um herói, a sabedoria de um velho mestre ou a intensidade da paixão de um amante? Se essa ressonância já o alcançou, então você já teve um vislumbre do que Carl Gustav Jung1, o renomado psicanalista suíço e um dos pilares da psicologia profunda, chamou de arquétipos.

Jung percebeu que a mente humana não é uma tábua rasa, um espaço vazio a ser preenchido apenas por experiências individuais. Pelo contrário, ele propôs que nascemos com uma espécie de “estrutura psíquica” inata, um conjunto de padrões universais e primordiais de pensamento, sentimento e comportamento. Esses são os arquétipos, moldes invisíveis, mas poderosos, que dão forma às nossas experiências mais fundamentais e nos conectam a toda a tapeçaria da existência humana. Eles não são memórias ou ideias específicas, mas sim predisposições herdadas para reagir ao mundo de certas maneiras, para formar certas imagens e para experimentar certas emoções.

Essa herança psíquica não é algo que aprendemos formalmente, mas sim uma bagagem ancestral que carregamos em nosso Inconsciente Coletivo2. Diferente do inconsciente pessoal, que armazena nossas experiências reprimidas e esquecidas, o Inconsciente Coletivo é um vasto e profundo reservatório de experiências e imagens primordiais acumuladas ao longo de toda a evolução da espécie humana. É por isso que, através das eras e das culturas, encontramos mitos, lendas, contos de fadas, rituais e símbolos que guardam semelhanças impressionantes e ressoam tão profundamente em nós. Eles são, em sua essência mais pura, as manifestações e expressões simbólicas desses arquétipos universais, que emergem em nossa consciência de diversas formas, seja em nossos sonhos, fantasias, obras de arte ou nas dinâmicas de nossos relacionamentos.

Mas, afinal, como esses arquétipos se manifestam e quais são os mais proeminentes? Jung identificou uma vasta gama deles, e cada um representa uma faceta fundamental da experiência humana, influenciando nossas percepções, emoções e comportamentos de maneiras muitas vezes sutis, mas profundas. Vamos explorar alguns dos mais conhecidos, de forma simples e direta, para que você possa começar a identificá-los em si mesmo e no mundo ao seu redor, e assim, aprofundar seu autoconhecimento e sua compreensão da complexidade da psique humana.

A Persona é a “máscara” que usamos para nos apresentar ao mundo. É o papel social que desempenhamos, a imagem que queremos projetar para os outros. Pense no profissional impecável no trabalho, no amigo divertido na balada, ou no filho obediente em casa. Todas essas são Personas. Elas são importantes para nos adaptarmos à sociedade, mas o perigo está em nos identificarmos demais com elas e esquecermos quem realmente somos por trás da máscara.

A Sombra é tudo aquilo que reprimimos em nós mesmos, as características que consideramos “ruins” ou “inaceitáveis”. Pode ser a raiva, a inveja, a preguiça, ou até mesmo talentos e potenciais que nunca desenvolvemos. A Sombra não é necessariamente má, ela é apenas a parte de nós que não foi integrada à nossa consciência. Ignorá-la não a faz desaparecer, pelo contrário, ela pode se manifestar de formas inesperadas. O caminho para a totalidade, segundo Jung, passa por reconhecer e integrar a Sombra.

Jung também falou sobre a Anima e o Animus. A Anima é o lado feminino presente na psique masculina, e o Animus é o lado masculino presente na psique feminina. Todos nós carregamos características do gênero oposto dentro de nós. A integração desses aspectos é crucial para o desenvolvimento de uma personalidade completa e equilibrada. Quando negamos a Anima ou o Animus, podemos nos sentir incompletos ou ter dificuldades em nossos relacionamentos.

Se os arquétipos são como peças de um quebra-cabeça, o Self é a imagem completa. É o centro da nossa totalidade psíquica, a união da consciência e do inconsciente. O Self representa o nosso verdadeiro eu, a nossa essência mais profunda, o propósito da nossa existência. É o arquétipo da ordem e da totalidade, que nos impulsiona em direção à individuação, o processo de nos tornarmos quem realmente somos. É a busca por essa totalidade que nos move ao longo da vida.

O Herói é o arquétipo da coragem, da superação e da busca por um ideal. Ele enfrenta desafios, supera obstáculos e, muitas vezes, sacrifica-se por um bem maior. A jornada do herói é um padrão universal que vemos em mitos, filmes e até mesmo em nossas próprias vidas. O Herói nos lembra que temos a capacidade de enfrentar nossos medos e de nos transformar.

Por fim, temos o Velho Sábio e a Grande Mãe. O Velho Sábio representa a sabedoria, a orientação e o conhecimento ancestral. É a figura do mentor, do guia espiritual. A Grande Mãe, por sua vez, simboliza a nutrição, o acolhimento, a proteção e a fertilidade. É a força que nos dá vida, nos sustenta e nos oferece segurança. Ambos são arquétipos de grande poder, que nos conectam à nossa ancestralidade e à nossa capacidade de crescer e florescer.

Entender os arquétipos de Jung não é apenas uma curiosidade intelectual, é uma ferramenta poderosa para o autoconhecimento. Ao reconhecer esses padrões em nós mesmos e nos outros, podemos compreender melhor nossos impulsos, nossos medos, nossos desejos e nossas motivações. Eles nos mostram que, por mais únicos que nos sintamos, estamos todos conectados por uma teia invisível de experiências humanas universais. E é nessa conexão que reside a beleza e a profundidade da psique humana.

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Paz e Luz

 

1 – Carl Gustav Jung (1875–1961) foi um psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundador da psicologia analítica. Discípulo dissidente de Freud, Jung desenvolveu conceitos fundamentais como os arquétipos, o inconsciente coletivo e o processo de individuação. Sua abordagem valorizava os símbolos, os mitos e os sonhos como caminhos para compreender a psique humana em sua totalidade.

2 – O Inconsciente Coletivo, conceito fundamental na psicologia analítica de Carl Gustav Jung, refere-se a uma camada mais profunda da psique humana, compartilhada por toda a humanidade. Diferente do inconsciente pessoal (que contém experiências e memórias reprimidas de um indivíduo), o Inconsciente Coletivo é composto por padrões universais, imagens e símbolos inatos, chamados arquétipos. Ele é uma herança psíquica transmitida de geração em geração, manifestando-se em mitos, lendas, sonhos e símbolos culturais, conectando-nos a experiências ancestrais e a um conhecimento universal que transcende a experiência individual.

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