Wabi-Sabi: A beleza da imperfeição e como ela pode curar sua busca por perfeccionismoAproximadamente 5 min. de leitura

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Você já sentiu aquele peso no peito, uma exaustão mental que não vem do excesso de trabalho, mas da eterna sensação de que o que você fez não foi o suficiente? Sabe aquela voz interna que aponta o dedo para o único erro em um relatório de dez páginas, ou que te faz perder o sono porque você disse algo “meio estranho” em uma conversa casual?

Se você balançou a cabeça concordando, precisamos conversar sobre a armadilha do perfeccionismo. Mas não vamos falar sobre isso com termos clínicos frios. Vamos olhar para isso através de uma lente antiga, poética e profundamente curativa: O Wabi-Sabi.

Antes de viajarmos para o Japão, vamos fazer uma escala rápida no divã. Na psicanálise, a gente costuma olhar com muito cuidado para o que chamamos de Ideal do Eu. Trocando em miúdos, é aquela imagem polida, retocada e inatingível que construímos sobre quem deveríamos ser.

O problema não é querer melhorar. O problema é quando esse ideal se torna um tirano. O perfeccionismo, ao contrário do que muitos pensam, não é a busca pela excelência. É um mecanismo de defesa. É uma armadura pesada que vestimos na esperança de que, se formos perfeitos, não seremos julgados, não sentiremos vergonha e não seremos rejeitados.

Nós nos tornamos reféns de um padrão que não existe na realidade. E é aqui que a psique adoece, presa entre o desejo de ser amada e o terror de ser “descoberta” como falha.

É aqui que entra o Wabi-Sabi. Não é apenas um estilo de decoração que você vê no Pinterest com vasos de barro e madeira de demolição. É uma filosofia de vida japonesa profunda, derivada do Zen Budismo e da cerimônia do chá.

Em essência, o Wabi-Sabi é a arte de encontrar beleza na imperfeição e profundidade na natureza, aceitando o ciclo natural de crescimento, decadência e morte. É reverenciar o que é:

-Imperfeito;

-Impermanente;

-Incompleto.

Imagine uma xícara de chá feita à mão. Ela não é perfeitamente simétrica como uma xícara industrial de plástico. Ela tem uma textura rugosa. Talvez, com o tempo, ela ganhe uma pequena rachadura. Para o olhar ocidental, obcecado pelo “novo” e pelo “imaculado”, a xícara está quebrada, logo é lixo.

Para o olhar do Wabi-Sabi, essa xícara agora tem história. A rachadura conta que ela foi usada, que ela viveu, que o tempo passou por ela. Ela é mais bela porque é imperfeita, não apesar de ser.

Agora, olhe para você. Olhe para a sua história.

O perfeccionismo tenta nos transformar naquela xícara de plástico industrial: Lisa, sem marcas, idêntica a um ideal pré-fabricado e, francamente, sem alma. O Wabi-Sabi nos convida a sermos a cerâmica feita à mão.

Quando aplicamos essa filosofia à nossa saúde mental, acontece uma mudança de chave libertadora. Começamos a entender que nossas “rachaduras”, nossas falhas, nossos tropeços, nossas cicatrizes emocionais e até aquele nosso jeito meio torto de lidar com a vida, são o que nos torna autênticos.

A psicanálise busca integrar as partes de nós que rejeitamos. O Wabi-Sabi faz o mesmo, mas com uma estética de acolhimento. Ele nos diz: “Tudo bem não estar pronto. Tudo bem envelhecer. Tudo bem que as coisas mudem.”

Pense nas pessoas que você mais admira ou ama profundamente. Você as ama porque elas são infalíveis? Ou você se conecta com elas justamente quando elas mostram vulnerabilidade?

A perfeição é hermética, ela não deixa espaço para o outro entrar. A imperfeição, por outro lado, cria pontes. Quando você aceita sua própria impermanência e suas falhas, você baixa a guarda. A ansiedade de “manter a fachada” diminui.

Eu atendo muitas pessoas que vivem exaustas tentando segurar um cenário de teatro que está desmoronando, tentando ser perfeitas. Elas têm medo de que, se soltarem as cordas, ninguém vai ficar para o espetáculo. A cura começa quando percebemos que a vida real, crua e imperfeita, é muito mais interessante do que o cenário de papelão.

Adotar o Wabi-Sabi na sua vida psicológica significa:

-Aceitar o fluxo: Entender que você é um processo, não um produto finalizado. Você nunca vai estar “pronto”, e isso é ótimo;

-Valorizar a simplicidade: Às vezes, “feito” é melhor que “perfeito”. Uma vida simples e autêntica vale mais que uma vida complexa e de aparências;

-Honrar suas cicatrizes: Elas são prova de que você enfrentou a vida. Elas são suas medalhas de sobrevivência, não seus atestados de defeito.

Abandonar o perfeccionismo não é chutar o balde e viver de qualquer jeito. É substituir a autocrítica cruel pela autocompaixão realista.

A vida, assim como a natureza, é feita de assimetrias. O Wabi-Sabi nos lembra que nada dura, nada é completo e nada é perfeito. E, paradoxalmente, é exatamente nessa finitude e nessa fragilidade que reside a beleza da existência humana.

Então, da próxima vez que você se pegar se punindo por não ser o “super-homem” ou a “mulher-maravilha”, lembre-se da xícara de chá. Suas rachaduras não diminuem seu valor, elas permitem que a luz entre e que sua história seja contada.

Trabalhe no delicado equilíbrio entre, saber que erra assumindo as devidas responsabilidades, sem ser inconsequente, tendo total ciÊncia que apesar de responsável, não deve se martirizar.

Respire fundo. Você já é o suficiente, exatamente como é: Perfeitamente imperfeito.

Paz e luz.

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