A Psicanálise dos Contos de Fadas: Chapeuzinho VermelhoAproximadamente 5 min. de leitura

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Chapeuzinho Vermelho nos acompanha desde a infância como se fosse um espelho, simples na superfície, profundo quando olhamos de perto. A história, uma menina que atravessa a floresta para visitar a avó e encontra um lobo astuto, pode parecer só uma advertência, mas, vista por um olhar psicanalítico, torna-se um mapa de desenvolvimento, desejo e risco. Antes de entrar na leitura simbólica, é útil recordar que esse conto tem raízes na tradição oral europeia e foi fixado em versões de autores como Charles Perrault1 e, depois, os Irmãos Grimm2; cada versão acrescenta camadas e sentidos diferentes.

Na psicanálise, lugares têm carga simbólica. A floresta representa o inconsciente, escuro, ambíguo, cheio de atalhos que não vemos de primeira. Quando Chapeuzinho atravessa a floresta, ela não apenas caminha até a casa da avó, ela atravessa uma passagem de infância para uma experiência onde normas, curiosidade e pulsões entram em conflito. Atravessar é um ato de separação, neste caso do lar, mas também de encontro com o Outro, que aqui é simbolizado pelo lobo.

O lobo funciona como arquétipo do predador, mas também como figura do desejo adulto. Ele fala, engana, espera. Em versões mais antigas a violência é mais explícita, o lobo come a avó e, em algumas tradições, o conto chega a imagens bem cruéis, o que reflete a função pedagógica do mito, onde se deve alertar para perigos reais e simbólicos.

O vermelho não é casual. Cor do sangue, da vida e da paixão, o capuz sinaliza diferença e visibilidade. Para a psicanálise, a cor também pode marcar a transição sexual e social da menina, ela se destaca no mundo, atrai olhares e, por isso, precisa aprender a navegar esse campo de forças. Esse movimento entre ser vista e ser protegida é central, a moral do conto varia conforme a versão, onde alguns finais são mais punitivos, outros resgatam a menina, mas a lição sobre limites e riscos permanece.

Uma leitura psicanalítica também presta atenção às gerações. Chapeuzinho é parte de uma cadeia feminina, filha, mãe (às vezes ausente), avó. A ida à casa da avó pode ser vista como um desejo de reconexão com a ancestralidade, um teste de maturação. Em Perrault, o tom é mais moralizante, já nos Grimm, há frequentemente um salvador, o caçador, que restaura a ordem. Essas diferenças narrativas apontam para valores culturais distintos sobre autonomia feminina e proteção social.

Quando Chapeuzinho conversa com o lobo, duas coisas acontecem, ela usa a linguagem, capaz de enganar e ser enganada, e demonstra ausência de prudência. A lição, explícita em algumas versões, é sobre a necessidade de limites. Na clínica, encontramos esse padrão, onde jovens que ainda estão aprendendo a reconhecer intenções alheias, a colocar fronteiras e a traduzir impulsos. O conto, então, atua como um dispositivo que ensina linguagem emocional e regras sociais de forma imaginária.

Nas versões em que aparece um caçador que salva as vítimas, há o alívio do resgate externo, já nas versões onde o final é trágico, como em Perrault, a ênfase recai sobre a consequência das escolhas. Esse contraste espelha conflitos clínicos sobre autonomia versus dependência, responsabilidade e culpa. O resgate pode funcionar como fantasia de reparação, enquanto o final trágico, como aviso severo sobre a realidade das consequências.

Num consultório ou numa conversa com pais, o conto da Chapeuzinho Vermelho pode ser usado como ponte para falar de riscos reais, como a internet, estranhos, sexualidade precoce, entre outros, e, ao mesmo tempo, de processos internos, passando por curiosidade, sedução, vergonha, coragem, etc. Em terapia, trabalhar com esse conto ajuda a nomear medos e desejos, a colocar limites e a pensar em como apoiar a passagem da infância para fases mais autônomas sem apressar nem super proteger.

Chapeuzinho Vermelho continua vivo porque reúne elementos universais, um percurso iniciático, um perigo reconhecível, e uma lição sobre limites e crescimento. Lido pela lente psicanalítica, o conto não é só um aviso às crianças, é uma narrativa que fala da constituição do sujeito, de como aprendemos a distinguir o que nos alimenta do que nos devora. E, como todo bom conto, ele nos convida a olhar para nossas florestas internas com menos pânico e mais curiosidade, sem, claro, perder de vista a necessidade de cuidado.

Paz e Luz

 

1 – Charles Perrault (1628 – 1703) foi um escritor francês considerado o “pai dos contos de fadas”. Membro da Academia Francesa, registrou em forma literária narrativas populares da tradição oral europeia, como Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, A Bela Adormecida e O Gato de Botas, dando origem às versões clássicas que conhecemos hoje.

2 – Os Irmãos Grimm, Jacob (1785–1863) e Wilhelm Grimm (1786–1859), foram estudiosos, linguistas e folcloristas alemães que se dedicaram a coletar e preservar contos da tradição popular europeia. Entre suas obras mais conhecidas estão Branca de Neve, João e Maria, Rapunzel e Chapeuzinho Vermelho, reunidas em sua famosa coletânea Contos de Fadas para Crianças e Adultos, publicada no início do século XIX.

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