A Psicanálise dos Contos de Fadas: Branca de Neve e os Sete AnõesAproximadamente 6 min. de leitura

branca de neve
Leia o artigo

Branca de Neve é, na superfície, uma história simples, uma menina de rara beleza, a inveja de uma madrasta, refúgio com sete anões e um envenenamento que parece condená-la, até que a redenção chega por meios inesperados. Mas, como todo conto de fadas que perdura, ela fala em símbolos, da rivalidade entre mulheres, da relação com a autoridade, do corpo como lugar de desejo e limite. A versão que conhecemos foi cristalizada pelos Irmãos Grimm1 no século XIX, reunindo elementos que aparecem em variantes europeias mais antigas.

Atendimento em Psicanálise (Online)

Comecemos pelos personagens, eles não são apenas “quem faz o quê” na trama, são figuras internas da vida psíquica. A madrasta representa a voz crítica, o ideal superegoizado (Superego2) que mede valor pela aparência e pelo reconhecimento social. Sua pergunta ao espelho: “Quem é a mais bela?”, não é apenas vaidade, é uma busca por validação externa que explica sua raiva quando alguém (Branca) ocupa o lugar de aprovação que ela deseja. Branca, por sua vez, simboliza uma fusão de inocência e corpo desejável: Pele branca, lábios vermelhos, cabelos negros, imagens mitológicas do contraste entre vida e morte, presença e ausência.

Os sete anões funcionam como um microcosmo social e psíquico. No nível literal, são provedores de abrigo e limite, protegem a criança e impõem regras, como não abrir a porta. Simbolicamente, eles podem ser vistos como partes do self, forças laboriosas que mantêm uma vida doméstica, uma constelação de funções que sustentam a existência cotidiana. Alguns intérpretes leem os anões como a “comunidade interna” que aceita e conserva a beleza/fragilidade de Branca, mas que não consegue impedir a agressão externa, representada nesse conto como a madrasta.

A repetição das tentativas de matar, passando pela a ordem ao caçador, o pente envenenado, a maçã envenenada, fala de um impulso persecutório que insiste. Na leitura psicanalítica clássica, inspirada em Freud3 e expandida por autores posteriores, há aqui material sobre rivalidade edipiana4, desejo e medo de castração simbólica, a figura feminina que substitui a mãe biológica (a madrasta) e a jovem que encarna uma promessa de desejo para a comunidade são posições conflituosas.

O estado “morto-vivo” de Branca dentro do caixão de vidro é riquíssimo simbolicamente. Existe aí uma suspensão entre pulsões vitais e pulsões de morte, o que Jung5 chamaria de encontro com a sombra e o que Freud, mais tarde, teorizará como a presença do drive de morte. O caixão torna o corpo objeto de contemplação, preservado, admirado, transformado em troféu. Quando o príncipe aparece e “adquire” o corpo, abre-se uma leitura sobre possessão e a objetificação do feminino, a pessoa amada transformada em possesso simbólico. Alguns textos psicanalíticos contemporâneos destacam esse ponto, a salvação que reconstitui ordem social, mas também complexifica o tema do consentimento e da autonomia.

Na clínica, o que podemos retirar desse conto para pensar a experiência subjetiva?

Primeiro, a história dá nome para o que muitas pessoas vivenciam, ser alvejadas poela inveja, sentir-se trocada, precisar se refugiar.

Segundo, a trama mostra mecanismos psicológicos como idealização, rivalidade, proteção grupal, que aparecem em relações familiares e amorosas. Para dar Um exemplo prático posso citar pacientes que descrevem sentir “inveja” de alguém mais jovem ou mais reconhecido, às vezes reproduzem a cena da madrasta, medem seu próprio valor pelo espelho social, e isso ativa comportamentos autodestrutivos ou persecutórios. O trabalho terapêutico frequentemente propõe deslocar essa busca por validação externa para um reconhecimento interno mais estável.

Por fim, a moral não precisa ser simplista. A vitória de Branca não é apenas a punição da madrasta, mas a possibilidade de reintegração, do corpo que retorna à vida, da subjetividade que não se reduz ao veredito do espelho. O conto persiste porque dá forma simbólica a um dilema humano perene que consiste em como viver o desejo e a beleza sem transformá-los em campo de batalha. Lemos Branca de Neve quando queremos falar de inveja, perdas, redenções, e o fazemos com imagens que nos tocam direto, sem precisar de termos técnicos.

Branca de Neve nos coloca diante de figuras internas e externas de julgamento, desejo e proteção. A psicanálise não “decifra” o conto definitivamente, antes, oferece ferramentas para que cada leitor, criança ou adulto, reconheça nelas partes de si e possa transformá-las. E talvez por isso o conto continue a nos servir, não como receita, mas como espelho, um espelho que, desta vez, pode apontar para dentro, não apenas para fora.

Paz e luz.

 

1 – Os Irmãos Grimm, Jacob (1785–1863) e Wilhelm Grimm (1786–1859), foram estudiosos, linguistas e folcloristas alemães que se dedicaram a coletar e preservar contos da tradição popular europeia. Entre suas obras mais conhecidas estão Branca de Neve, João e Maria, Rapunzel e Chapeuzinho Vermelho, reunidas em sua famosa coletânea Contos de Fadas para Crianças e Adultos, publicada no início do século XIX.

2 – Superego, na teoria de Freud, é a instância psíquica da personalidade responsável pela moralidade, internalizando os valores e regras da sociedade. Ele atua como um juiz interno, impondo limites e gerando sentimentos de culpa ou orgulho.

3 – Sigmund Freud (1856-1939) foi o fundador da psicanálise e uma das figuras mais influentes do pensamento moderno. Médico austríaco, revolucionou nossa compreensão da mente humana ao propor a existência do inconsciente e desenvolver conceitos como repressão, transferência e projeção. Sua teoria sobre a estrutura da personalidade (id, ego e superego) e os estágios do desenvolvimento psicossexual transformaram profundamente a psicologia e influenciaram diversos campos do conhecimento, da arte à filosofia.

4 – Edipiana refere-se ao Complexo de Édipo, uma teoria psicanalítica de Sigmund Freud sobre a fase do desenvolvimento infantil em que a criança sente atração pelo genitor do sexo oposto e rivalidade com o genitor do mesmo sexo. Essa dinâmica é descrita como fundamental para a constituição da identidade e inserção da criança no mundo, baseada no mito grego de Édipo, que descobriu ter matado o pai e se casado com a mãe.

5 – Carl Gustav Jung (1875–1961) foi médico psiquiatra suíço, fundador da Psicologia Analítica. Discípulo dissidente de Freud, propôs uma abordagem simbólica e profunda do inconsciente, introduzindo conceitos como arquétipos, inconsciente coletivo, persona, sombra e processo de individuação. Jung enxergava a psique como um sistema dinâmico em busca de totalidade, articulando ciência, filosofia, religião e mitologia. Sua obra permanece central nos estudos da alma humana, influenciando não apenas a psicanálise, mas também a arte, a literatura e a espiritualidade contemporânea.

Autor

Você pode gostar...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Traduzir »
Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support