A Psicanálise dos Contos de Fadas: A Pequena SereiaAproximadamente 4 min. de leitura

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Há algo perturbador e, ao mesmo tempo, irresistível em histórias como A Pequena Sereia. Não é só a beleza do mar ou o romance impossível, é a intensidade de um desejo que exige preço. Do ponto de vista psicanalítico, esse conto se oferece como um mapa rápido e dramático das nossas faltas, das trocas que fazemos para ser vistos e do que perdemos quando tentamos pertencer a um mundo que não nos reconhece.

Na raiz da história está o que chamamos, em linguagem acessível, de falta. A sereia deseja aquilo que não tem, uma vida em terra firme, a linguagem humana, a possibilidade de ser amada de modo reconhecido. Esse desejo nasce de uma lacuna, uma sensação de incompletude que a personagem tenta preencher. A psicanálise não trata o desejo como algo simplesmente material, ele aparece como uma força que organiza escolhas, arrisca limites e, muitas vezes, pede renúncias radicais.

No conto, o pacto com a bruxa do mar simboliza o preço que pagamos para tentar preencher essa falta. Trocar a voz pelo corpo humano não é apenas um elemento fantástico, é uma metáfora potente sobre o que perdemos quando renunciamos àquilo que nos dá identidade, a fala, a subjetividade, a potência simbólica.

Perder a voz na história é central. A voz ali funciona como o lugar pelo qual a sereia se nomeia e se relaciona com o mundo simbólico. Quando ela abdica dela, há um duplo desaparecimento, tanto de uma parte de si, como do poder de se representar. Psicologicamente, é possível ler isso como um movimento de silenciamento, muitas vezes na vida vemos pessoas que, para serem amadas ou aceitas, deixam de expressar suas opiniões, seus desejos e suas reclamações.

Esse gesto de calar-se para ser desejável revela também um deslocamento do sujeito, de agente falante a objeto estético. Não é raro, na clínica, ver indivíduos que aceitam redefinir suas vidas segundo a fantasia alheia, acreditando que assim alcançarão reconhecimento.

O sacrifício extremo da sereia põe em cena outra questão: Até que ponto a transformação que buscamos preserva nossa identidade? A narrativa expõe um impasse, onde tornar-se humano não significa automaticamente ser reconhecido como tal, e, pior, pode significar desaparecer para sempre como sujeito singular.

Para a psicanálise, identidade não é fixa, é construída em interações simbólicas. Quando essas trocas são assimétricas, alguém dá tudo e recebe muito pouco em troca, a base subjetiva corre risco. A Pequena Sereia ilustra isso com clareza dolorosa, a promessa de amor do príncipe não garante a integração que a sereia esperava, e o sacrifício vira anulação.

Vale lembrar que o príncipe, na maioria das versões, não está intencionalmente mal. Ele é figura do Outro que responde de acordo com sua própria fantasia. A sereia projeta nele a solução para sua falta. Aqui aparece outro aprendizado, o amor romântico, quando entendido como cura milagrosa, tende a desviar a responsabilidade do sujeito sobre sua própria vida emocional. Esperar que o Outro nos complete é colocar nas mãos do outro um poder que só o trabalho interno pode sustentar.

Na prática clínica, histórias como essa ajudam pacientes a enxergar padrões, quem aqui já se calou para agradar? Quem já mudou algo profundo em si esperando reconhecimento que não veio? Trazer o conto para a sessão permite externalizar a dor e avaliar onde o sacrifício foi produtivo, e onde foi autodestrutivo.

A Pequena Sereia não é só um drama romântico, é uma lição sobre limites, sobre o valor de nossa voz e sobre os riscos de trocar nossa subjetividade por uma promessa. Lê-la psicanaliticamente é aprender a desconfiar de soluções fáceis para a falta humana e a valorizar processos de transformação que preservem, ou ao menos respeitem, a integridade do sujeito.

No fim, o convite é este: Antes de aceitar o pacto que promete pertencimento, pergunte-se o que será pedido em troca, e se esse preço vale a sua voz.

Paz e luz.

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