A Gramática do Olhar: Como o meio onde vivemos desenha o que vemosAproximadamente 5 min. de leitura

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Você já parou para pensar por que certas coisas parecem “óbvias” para você, mas são completamente estranhas para outra pessoa? Ou por que, diante de um mesmo acontecimento, dois vizinhos conseguem enxergar mundos totalmente opostos? A verdade é que nossos olhos não são apenas lentes biológicas, eles são educados. Nós não vemos o mundo como ele é, mas sim como fomos ensinados a vê-lo.

Existe uma espécie de “gramática do olhar” que aprendemos sem perceber. Desde o dia em que nascemos, o meio em que estamos inseridos, como nossa família, nosso bairro, nossos amigos e nossa bolha nas redes sociais, funciona como um par de óculos com lentes coloridas. Se você usa lentes azuis a vida toda, o céu é azul, o mar é azul e até a grama tem um tom azulado. Para você, essa é a única realidade possível.

Na psicanálise, entendemos que o sujeito se constitui através do olhar do outro. O meio em que vivemos não nos dá apenas informações, ele nos dá contornos. Se você cresce em um ambiente onde o sucesso é medido apenas pelo acúmulo material, seu olhar será treinado para escanear o mundo em busca de símbolos de status. Se o seu meio valoriza o silêncio e a introspecção, você verá a extroversão alheia como algo invasivo.

O problema é que esse meio tende a ser viciado. Ele nos oferece sempre a mesma “dieta” de informações. Hoje, com os algoritmos das redes sociais, isso ficou ainda mais drástico. O sistema entende do que você gosta e passa a te entregar apenas variações do mesmo tema. É como se você estivesse em uma sala cheia de espelhos, para onde quer que você olhe, acaba enxergando apenas o reflexo das suas próprias convicções.

É justamente nessa repetição que nascem as grandes fraturas sociais. Onde a “gramática do olhar” se torna mais rígida, a polêmica se instala. Pense, por exemplo, na forma como diferentes meios enxergam a educação dos filhos. Para uns, o uso da autoridade firme é um gesto de amor e preparo para o mundo, para outros, inseridos em meios mais progressistas, o mesmo ato é visto como uma microagressão que silencia a subjetividade da criança. Nenhum dos dois está “mentindo”, eles estão apenas lendo o mesmo gesto com alfabetos diferentes.

Ou observe o debate sobre o estilo de vida e consumo. Enquanto em certas bolhas urbanas o minimalismo e a renúncia ao carro são vistos como o ápice da consciência ética, em outras comunidades, a conquista do automóvel e o consumo visível são os únicos sinais de dignidade e superação da pobreza. O que para um é “consciência”, para o outro é “privilégio de quem já tem tudo”.

Até questões de fé e política seguem essa lógica. Quando o meio em que você vive reafirma diariamente que um determinado lado é o “mal absoluto”, qualquer tentativa de diálogo soa como traição. O olhar fica binário, ou é luz, ou é trevas. Perdemos a capacidade de enxergar as nuances, os tons de cinza que compõem a complexidade humana.

Receber sempre a mesma informação traz um conforto perigoso. É o que chamamos de viés de confirmação. Quando lemos algo que concorda conosco, nosso cérebro relaxa. “Viu? Eu estava certo!”, pensamos. Esse ciclo nos dá uma sensação de segurança e pertencimento. Afinal, questionar o meio em que vivemos dói. Exige esforço psíquico e, muitas vezes, o risco de ser excluído pelo próprio grupo.

No entanto, essa repetição empobrece nossa percepção. Imagine que você viva em uma cidade onde todas as casas são pintadas de branco. Um dia, alguém chega e fala sobre a cor vermelha. Para você, essa pessoa não está apenas errada, ela parece estar delirando. O seu “meio” não te deu o repertório necessário para processar o vermelho. Assim, o que é diferente passa a ser visto como ameaça, e não como possibilidade, aqui o exemplo pode parecer simplório, mas pegue essa estrutura e leve para uma questão política ou religião.

A formação de uma visão de mundo realmente completa e coerente exige um gesto de coragem, o rompimento da bolha. Não se trata de abandonar seus valores, mas de colocá-los à prova e amadurece-los. É preciso ir onde o discurso é diferente, ouvir quem pensa o oposto e, principalmente, entender o porquê de pensarem assim.

Uma opinião que nunca foi confrontada não é uma opinião, é apenas um eco, pobre e raso. Para que possamos dizer que temos um pensamento próprio, precisamos ter navegado por águas desconhecidas. É no choque com o diferente que descobrimos quem realmente somos e o que realmente defendemos.

Sair desse cercadinho informativo nos permite desenvolver a alteridade, a capacidade de reconhecer o outro como alguém legítimo, mesmo que ele não compartilhe da nossa gramática visual. Quando rompemos a bolha, deixamos de ser reféns do meio para nos tornarmos autores da nossa própria visão, e note que o questionamento é para aprofundar conhecimento, esclarecimento e entendimento e não apenas para ser o “do contra”.

O convite que faço hoje é simples, mas desafiador: Mude o ângulo. Leia um autor que você normalmente ignoraria, tente entender a lógica de quem pensa diferente de você seja na área que for, questione aquela certeza absoluta que você carrega há anos, analise, com verdadeira sinceridade e sem “bloqueios”, o contraditório, e com isso faça os ajustes que considerar necessários no seu entendimento.

Expandir a gramática do olhar não significa que você vai mudar de ideia sobre tudo, mas sim que sua visão será mais profunda, embasada e menos preconceituosa. O mundo é vasto demais para ser enxergado apenas pela fresta da porta da nossa casa. Abra a porta, saia para o quintal e descubra que existem cores que a sua bolha nunca te mostrou. A verdadeira liberdade começa quando percebemos que a nossa visão de mundo é apenas uma entre bilhões e que todas elas têm algo a nos ensinar.

Paz e luz.

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