Você já reparou como certas notícias ou debates nas redes sociais funcionam como um verdadeiro “teste de Rorschach”1 da vida real? Diante de um fato, as pessoas não apenas emitem uma opinião, elas projetam ali quem são, no que acreditam e, principalmente, quais são os seus valores mais profundos, inclusive aqueles que tentam esconder.
A verdade é que a nossa fala nunca é neutra. Quando abrimos a boca para defender uma ideia ou justificar o comportamento de alguém, estamos, na prática, desenhando o mapa do nosso próprio caráter.
Muitas vezes, agimos como “advogados de causas perdidas” sem perceber o porquê. Imagine a cena, infelizmente comum: Uma mulher é vítima de violência e, imediatamente, surge alguém para questionar o comprimento da saia dela ou o horário em que ela estava na rua ou ainda a rua em que ela estava.
Nesse momento, quem profere esse tipo de comentário pode acreditar que está apenas fazendo uma observação “lógica” ou “prudente”. No entanto, o que essa pessoa está fazendo é revelar uma estrutura machista internalizada. Ao culpar a vítima, ela está dizendo que a liberdade da mulher é menos importante do que o impulso do agressor. Ela está escolhendo um lado. E o lado escolhido revela um valor de dominação e controle sobre o corpo alheio.
Isso acontece porque as nossas defesas externas são reflexos das nossas identificações internas. Se eu me sinto confortável com uma piada homofóbica ou se busco “contexto” para justificar uma fala racista de uma figura pública, eu não estou sendo apenas um observador imparcial. Eu estou comunicando que aquele preconceito não me fere, ou pior, que ele ressoa com algo que eu considero aceitável.
Um fenômeno muito curioso, e infelizmente tristíssimo, que observamos na sociedade é o uso da religião para validar o ódio. É quase um paradoxo, pessoas que seguem doutrinas baseadas no amor ao próximo, na compaixão e no acolhimento, mas que usam passagens isoladas de textos sagrados para excluir o próximo ou mesmo incitar intolerância a indivíduos ou grupos.
Aqui, o valor real não é a fé, mas o uso da divindade como um “carimbo de aprovação” para o próprio preconceito. Quando alguém usa o nome de Deus para atacar a orientação sexual de alguém ou para manter privilégios de classe, essa pessoa está revelando que o seu ego e as suas intolerâncias são maiores do que os princípios que ela diz seguir. A religião, nesse caso, torna-se uma máscara para o autoritarismo, é ela gritando: “Eu não sou intolerante e preconceituoso, eles merecem sofrer, mas é por que deus quer assim”. E nesse caso deus com letra minúscula mesmo em flagrante caso de distorção religiosa e manipulação de massas.
Existe um conceito importante que precisamos encarar: O silêncio e o conforto também são posicionamentos. Se você está em uma mesa onde o etarismo, preconceito contra a idade, é a pauta, e você ri ou se cala diante de ofensas a pessoas mais velhas ou jovens demais, você está validando aquele valor e se tornando conivente.
O mesmo vale para as questões de classe social. Justificar a desigualdade como “falta de esforço” de quem nada tem, ignorando abismos de oportunidade, mostra que, no mínimo você não tem o menor conhecimento sobre realidade social e de oportunidade, mas a grande maioria revela mesmo um valor de meritocracia cega que serve apenas para proteger o próprio conforto de quem está no topo.
Não se engane, a forma como reagimos ao erro do outro diz mais sobre nós do que sobre o erro em si. Se o comportamento de um agressor, de um político corrupto ou de um influenciador preconceituoso encontra eco ou justificativa em você, é hora de olhar para dentro, você está demonstrando que aceita e concorda com esses atos.
Nossos valores reais não estão no que escrevemos na biografia das redes sociais ou no que dizemos em momentos de “politicamente correto”. Eles aparecem nas frestas, naquilo que defendemos com unhas e dentes quando nos sentimos ameaçados ou quando queremos pertencer a um grupo.
Entender isso é um passo libertador. Ao perceber que suas defesas revelam seu caráter, você ganha a oportunidade de questionar: “Por que eu sinto necessidade de justificar esse comportamento?”, “O que em mim se identifica com essa ideia excludente?”.
A psicanálise nos ensina que a cura passa pela verdade. E a verdade sobre quem somos está impressa em cada palavra de apoio que damos e em cada silêncio que mantemos diante da injustiça. No fim das contas, a nossa ética é o que sobra quando as desculpas acabam.
Freud2 passou muito bem essa ideia em uma frase famosa que diz mais ou menos assim: “Quando Pedro fala de Paulo, eu sei mais sobre Pedro do que sobre Paulo.
Paz e luz.
1 – Teste de Rorschach utiliza pranchas com manchas de tinta abstratas para investigar a personalidade. Como as imagens não têm sentido definido, o que a pessoa “enxerga” nelas é uma projeção de seus próprios pensamentos e valores. No texto, o termo é usado como metáfora para mostrar que nossas opiniões sobre fatos sociais revelam mais sobre nosso interior do que sobre o acontecimento em si.
2 – Sigmund Freud (1856–1939) foi um médico neurologista austríaco e o criador da Psicanálise. Ele revolucionou a forma como entendemos a mente humana ao investigar o inconsciente, revelando que grande parte de nossas ações e sentimentos é movida por desejos e memórias que nem sempre percebemos conscientemente. Suas teorias sobre os grupos e a cultura ainda são bases fundamentais para compreendermos como convivemos em sociedade hoje.




