Você já teve aquela sensação incômoda de que está vivendo o mesmo dia, ou o mesmo problema, pela décima vez? Sabe aquele momento em que você se pega dizendo: “Eu não acredito que fiz isso de novo”? Seja aceitando um emprego que te sobrecarrega da mesma forma que o anterior, ou entrando em um relacionamento com alguém que tem exatamente as mesmas atitudes daquela pessoa que te fez sofrer no passado.
Parece que existe um roteiro invisível sendo seguido. E a verdade é que, muitas vezes, existe mesmo.
No consultório, é muito comum ouvirmos queixas sobre o “azar” ou sobre como o mundo parece conspirar contra a felicidade de alguém. Mas, quando começamos a puxar o fio dessa meada, percebemos que não se trata de má sorte, mas sim de padrões emocionais inconscientes. São mecanismos profundos que operam “nos bastidores” da nossa mente, influenciando nossas escolhas sem que a gente perceba.
O que acontece “por baixo do capô”?
Imagine que nossa mente é como um iceberg. Aquilo que você sabe sobre si mesmo, como seus gostos, seus planos para o futuro, o que você vai comer no jantar, entre outros, é apenas a pontinha que fica acima da água. A parte imensa que está submersa é o que chamamos de inconsciente. É lá que guardamos nossas memórias mais primitivas, nossos medos esquecidos e as formas como aprendemos a ser amados ou a nos proteger quando éramos crianças.
Esses registros funcionam como um par de óculos coloridos que nem sabemos que estamos usando. Se os seus óculos são “azuis”, o mundo todo parecerá azul. Se você cresceu em um ambiente onde o afeto só vinha através do sacrifício extremo, é muito provável que, hoje, você só se sinta digno de amor se estiver se esgotando pelos outros. Você não faz isso por mal, você faz porque, para o seu inconsciente, esse é o “mapa” da sobrevivência.
A psicanálise nos mostra algo fascinante e, às vezes, doloroso, nós tendemos a repetir o que não conseguimos elaborar. É a famosa autossabotagem.
Vamos a um exemplo prático: Uma pessoa que foi muito criticada na infância pode desenvolver um padrão de busca por perfeccionismo paralisante. Ela procrastina tarefas importantes não por preguiça, mas porque o medo inconsciente de falhar e ser criticada novamente é tão alto que “não fazer” acaba sendo uma defesa, embora uma defesa que gere muito sofrimento.
Ou então, pense naquela pessoa que sempre escolhe parceiros distantes emocionalmente. No fundo, pode haver um padrão de tentar “vencer” uma batalha antiga, como a tentativa de conquistar a atenção de um pai ou mãe ausente. Ela busca a mesma dificuldade do passado na esperança de que, desta vez, o final seja diferente. É uma tentativa de cura que acaba virando uma prisão.
Como a psicanálise entra nessa história?
A psicanálise não serve para te dar conselhos ou fórmulas mágicas. O papel do analista é ajudar você a identificar esses padrões e, principalmente, entender de onde eles vieram. É como se, durante as sessões, fôssemos juntos limpando as lentes daqueles óculos coloridos que mencionei.
Quando você entende que escolhe o sofrimento por uma necessidade de repetição inconsciente, essa escolha perde um pouco da força. O padrão começa a “ficar evidente” antes mesmo de acontecer. Você começa a notar os sinais: “Opa, estou prestes a me anular de novo para agradar fulano”. Esse é o estalo inicial da mudança.
A análise oferece um espaço seguro para que você possa falar sobre o que não tem palavras. Ao colocar em frases as suas dores e repetições, você retira o poder que o inconsciente tem de dirigir sua vida no “piloto automático”.
Mudar dói, mas repetir padrões que nos fazem sofrer dói muito mais a longo prazo. O objetivo não é se tornar uma pessoa perfeita, sem conflitos, mas sim alguém que conhece a própria história e não precisa mais ser refém dela.
Se você sente que está patinando nos mesmos erros, saiba que o autoconhecimento é a única chave capaz de abrir essas portas trancadas. Olhar para dentro pode dar medo, mas é o único caminho para que você, finalmente, comece a escrever o seu próprio roteiro, com consciência e liberdade.
Paz e luz.




