Sabe aquele momento em que você acorda, olha para o teto e a primeira pergunta que vem à mente não é “o que tenho para fazer hoje?”, mas sim “por que eu estou fazendo tudo isso?”. É uma sensação estranha, um vazio que parece não ser preenchido por conquistas profissionais, viagens ou novos bens materiais. É como se a vida tivesse perdido o tempero, e você estivesse apenas seguindo um roteiro escrito por outra pessoa.
Muitas vezes, essa falta de sentido aparece de mansinho. Pode começar com uma desmotivação para o trabalho que você sempre gostou, ou uma sensação de desconexão profunda mesmo estando cercado de amigos em um jantar animado. Você está lá, mas uma parte de você parece estar em outro lugar, ou pior, em lugar nenhum.
Vivemos em uma era de cobranças incessantes. Precisamos ser produtivos, felizes, saudáveis e bem-sucedidos o tempo todo. Nessa corrida, é muito fácil nos perdermos de nós mesmos. Acabamos adotando desejos que não são nossos: O carro do ano porque o vizinho comprou, a promoção no trabalho para orgulhar os pais, o estilo de vida que o algoritmo do Instagram diz ser o ideal.
O problema é que o nosso “eu” verdadeiro não aceita ser silenciado por muito tempo. Quando vivemos apenas para atender às expectativas externas, o sentido da vida começa a escorrer pelas mãos. A psicanálise olha para isso de uma forma muito especial. Ela não busca apenas “consertar” o sintoma da tristeza ou da apatia, mas tenta entender o que esse vazio está tentando nos dizer.
Imagine que sua vida é um filme onde você é o protagonista, mas percebe que está apenas lendo falas que não combinam com seus sentimentos. A psicanálise ajuda a pausar esse filme e perguntar: “Quem escreveu esse roteiro? E o que você realmente gostaria de dizer nessa cena?”.
Mudar a rota não é algo que acontece da noite para o dia com uma frase motivacional. O autoconhecimento profundo exige coragem para olhar para dentro. No consultório ou no atendimento online, o trabalho é criar um espaço seguro para que você possa falar sem julgamentos.
Muitas vezes, a falta de sentido está ligada a conflitos que nem sabemos que existem. Por exemplo, alguém que se sente profundamente infeliz na carreira médica, mesmo sendo bem-sucedido, pode descobrir na análise que escolheu a profissão para curar uma ferida familiar antiga, e não por um desejo genuíno de clinicar. Ao entender essa origem, a pessoa para de se culpar por “não ser grata” e começa a se dar permissão para buscar o que realmente a faz vibrar.
Outro exemplo comum é o sentimento de “anestesia emocional”. Para não sofrer com perdas ou frustrações, algumas pessoas acabam “baixando o volume” de todas as suas emoções. Só que, ao fazer isso, elas também silenciam a alegria, o entusiasmo e a paixão. A vida fica em tons de cinza. O processo psicanalítico ajuda a “aumentar o som” novamente, permitindo que a pessoa volte a sentir a vida em todas as suas cores, com a segurança de que ela agora tem ferramentas para lidar com as nuances desse sentir.
Encontrar sentido não significa necessariamente fazer grandes mudanças externas, como mudar de país ou largar o emprego. Às vezes, o sentido volta quando mudamos a nossa relação com o que já fazemos. É sobre encontrar a nossa voz dentro das nossas escolhas.
A psicanálise nos ensina que o desejo é o que nos move. Quando estamos desconectados do nosso desejo, a vida estagna. Ao olhar para sua história, para seus sonhos, aqueles que você tem à noite e aqueles que abandonou na infância, e para suas falas cotidianas, você começa a identificar padrões. Você começa a perceber onde está sendo você mesmo e onde está apenas sendo um eco dos outros.
Se você sente que perdeu a direção, saiba que esse vazio não é um defeito. É, na verdade, um chamado. É o seu psiquismo avisando que o modo como você está vivendo já não cabe mais dentro de quem você se tornou.
Investir em psicanálise é, acima de tudo, um ato de liberdade. É a oportunidade de parar de sobreviver e começar, de fato, a existir com propósito e autenticidade.
Paz e luz.




