Complexos: Entenda os “nós” emocionais que disparam reações automáticas em vocêAproximadamente 5 min. de leitura

complexos e nós
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Sabe aquele momento em que alguém faz um comentário bobo, talvez até sem maldade, e de repente você sente uma raiva subir pelo pescoço, o coração dispara e a resposta que sai da sua boca é totalmente desproporcional à situação?

Depois que a poeira baixa, vem aquela sensação estranha de ressaca moral e o pensamento inevitável: “Por que eu reagi assim? Não foi para tanto.”

Se você já passou por isso, saiba que não está “ficando louco”. É muito provável que algo ou alguém tenha esbarrado em um dos seus complexos.

Na psicanálise, gostamos de usar metáforas para explicar o invisível. Imagine que a sua psique é um tecido liso e fluido. O complexo é como se fosse um “nó” nesse tecido. Um emaranhado de emoções, memórias e percepções que se formou ao redor de uma ferida antiga e que, embora você não veja, está ali, pulsando energia.

Mas como esses nós se formam e por que eles têm tanto poder sobre nós? Vamos desenrolar esse novelo.

O que é um Complexo, afinal?

Esqueça a ideia popular de que ter um complexo é apenas “se sentir inferior”, embora o complexo de inferioridade seja um dos mais famosos. Tecnicamente, um complexo é um grupo de ideias e memórias carregadas de uma emoção muito forte, que se aglutinam ao redor de um núcleo comum.

Pense no complexo como um imã emocional.

Vamos supor que, na infância, você tenha passado por situações repetidas de rejeição ou crítica severa. Essa dor inicial é o núcleo. Com o tempo, todas as vezes que você se sentiu criticado na escola, ignorado por um amigo ou corrigido por um chefe, essas novas experiências foram atraídas por esse imã e “grudaram” na ferida original.

O resultado? Você não tem apenas uma memória isolada de crítica. Você tem um arquivo gigantesco, pesado e altamente sensível sobre “ser rejeitado”. Esse arquivo é o complexo.

A grande questão dos complexos não é apenas que eles existem, mas sim que eles possuem uma certa autonomia. Jung1 dizia uma frase brilhante: “As pessoas acham que têm complexos, mas são os complexos que têm as pessoas.”

Quando algo no seu dia a dia toca nesse “nó”, pode ser um tom de voz do seu parceiro, um olhar do chefe ou até uma piada de um amigo, o complexo é ativado. Nós chamamos isso de “constelar o complexo”.

Nesse exato momento, é como se você fosse “sequestrado”. A energia do complexo toma conta do seu ego. Você deixa de reagir ao que está acontecendo no presente, a piada do amigo, por exemplo, e reage com toda a carga acumulada de anos daquele arquivo doloroso.

É por isso que a reação é desproporcional. Você não está gritando com seu marido porque ele esqueceu a toalha molhada na cama, você está gritando com toda a história de desrespeito que aquele ato simbólico despertou em você. O outro, claro, fica sem entender nada, o que gera conflitos nos relacionamentos e aquela fama de “pavio curto” ou “dramático”.

Para entender seus complexos, você precisa olhar para a história das suas feridas. Eles geralmente se formam em torno de temas universais da experiência humana:

  • Poder e Autoridade: Se você teve pais muito autoritários, pode desenvolver um complexo que o faz reagir com submissão excessiva ou rebeldia explosiva diante de qualquer figura de chefe ou liderança.
  • Afeto e Abandono: Se o amor foi condicional (“só te amo se você for bonzinho”), qualquer sinal de frieza do parceiro pode disparar um pânico de abandono, gerando ciúmes possessivos ou choro compulsivo.
  • Desempenho: Se o seu valor foi medido apenas por notas ou conquistas, um erro simples no trabalho pode desencadear uma crise de ansiedade paralisante, pois o complexo grita que “se você errar, você não vale nada”.

Dá para desatar esse nó?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares.

A má notícia: Não “curamos” um complexo fazendo ele desaparecer para sempre. Eles fazem parte da nossa estrutura psíquica.

A boa notícia: Nós podemos tirar a energia deles.

O trabalho em psicoterapia não é apagar a memória, mas sim “drenar” a carga emocional excessiva que está presa nesse nó. O primeiro passo é a tomada de consciência.

Você precisa se tornar um observador de si mesmo. Tente identificar o padrão.

  • O que acabou de acontecer?
  • Por que meu coração disparou tanto?
  • Essa situação me lembra algo antigo?

Quando você consegue nomear o que está sentindo, você cria um pequeno espaço entre o gatilho e a sua reação.

É nesse pequeno espaço que reside a sua liberdade.

Em vez de ser possuído pelo complexo e agir no piloto automático, você ganha a chance de escolher uma resposta mais madura e condizente com quem você é hoje, e não com a criança ferida que vive dentro de você.

Entender seus complexos é, no fim das contas, um ato de coragem. É parar de culpar o mundo lá fora pelas nossas reações e começar a cuidar dos nós que carregamos aqui dentro. E acredite, ao desatar esses nós, a vida flui com muito mais leveza.

Paz e luz.

 

1 – Carl Gustav Jung (1875-1961): Psiquiatra suíço e fundador da Psicologia Analítica. Jung expandiu a compreensão do inconsciente, introduzindo conceitos como arquétipos e o inconsciente coletivo, e enfatizou a importância dos símbolos e da jornada individual de autoconhecimento.

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