Expressões Populares x Termos RacistasAproximadamente 7 min. de leitura
Você está conversando com amigos e alguém diz: “A coisa está preta”, mais tarde, alguém fala que determinado nome foi colocado na “lista negra”. Ninguém interrompe a conversa. Ninguém necessariamente teve a intenção consciente de ofender alguém.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das questões mais difíceis quando falamos de racismo na linguagem: Muitas expressões discriminatórias não chegam até nós acompanhadas de uma placa dizendo que são racistas, elas chegam como hábito.
O racismo não se resume a uma atitude explícita de superioridade de uma pessoa sobre outra. Ele também pode aparecer em práticas, representações e formas de linguagem que reproduzem associações negativas relacionadas à raça, à cor ou à origem. A própria legislação brasileira reconhece a discriminação racial como distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada, entre outros fatores, em raça e cor.
Isso não significa que toda pessoa que utiliza uma expressão problemática esteja conscientemente tentando discriminar alguém. A intenção importa, mas não é o único elemento da questão. Também importa aquilo que a expressão comunica e as associações históricas que ela mantém vivas.
A linguagem não serve apenas para descrever o mundo, ela também ajuda a organizá-lo.
Desde crianças, aprendemos que determinadas palavras representam coisas desejáveis, enquanto outras representam perigo, sujeira, fracasso ou desordem. Quando uma cultura passa séculos associando a negritude à inferioridade e à servidão, essas associações podem permanecer na linguagem mesmo depois de as pessoas deixarem de perceber conscientemente sua origem.
É aqui que a psicanálise pode oferecer uma contribuição interessante.
Aquilo que foi aprendido socialmente pode se tornar tão familiar que deixa de ser percebido como escolha. Repetimos uma palavra porque todos ao nosso redor repetem, o hábito produz uma espécie de invisibilidade. Não precisamos acreditar conscientemente na ideia contida em uma expressão para reproduzi-la.
É uma forma cotidiana de automatismo, por isso, quando alguém descobre que determinada expressão possui uma história racista, a primeira reação pode ser: “Mas eu nunca pensei nisso dessa maneira”, ou ainda “Eu não sou racista, tenho até bons amigos que são negros”.
Provavelmente esse é justamente o ponto. O inconsciente não se manifesta apenas em grandes conflitos internos. A maneira como falamos, os significados que naturalizamos e aquilo que aprendemos a considerar normal também participam da construção da nossa vida psíquica.
Um exemplo bastante conhecido é o verbo “denegrir”. A palavra vem do latim “denigrare”, relacionado à ideia de tornar negro ou escurecer. Com o tempo, passou a ser utilizada em português com o sentido de difamar, desonrar ou manchar uma reputação. O problema apontado por estudiosos e instituições que discutem racismo linguístico está justamente nessa associação entre tornar negro e tornar algo moralmente negativo.
Outro caso é “lista negra”, expressão utilizada para designar uma relação de pessoas ou coisas consideradas indesejáveis. Quando o negro aparece como aquilo que deve ser excluído, evitado ou rejeitado, a linguagem reforça uma associação simbólica entre negritude e negatividade. O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, por exemplo, recomenda substituir a expressão por alternativas como “lista de restrição” ou “lista de impedidos”.
Algo semelhante acontece em “a coisa está preta”, quando a cor preta é empregada como representação de uma situação ruim, perigosa ou problemática. O problema não está na existência da cor preta como palavra. Está na repetição cultural de uma oposição na qual o preto representa aquilo que deve ser temido ou evitado.
Há ainda “ovelha negra”, utilizada para designar alguém que se diferencia negativamente do grupo familiar ou social. A metáfora parece inocente quando observada isoladamente, mas participa da mesma tradição simbólica que transforma o negro em sinônimo de desvio, inadequação ou problema.

O problema vai além da intenção, imagine uma reunião de trabalho onde um gestor precisa explicar que determinada tarefa foi executada de maneira inadequada e diz que foi “serviço de preto”. Talvez ele não esteja pensando em escravidão, racismo ou inferioridade racial naquele momento. Está apenas reproduzindo uma expressão que ouviu durante toda a vida.
Agora imagine uma criança negra escutando essa frase, a situação muda, a criança não recebe apenas a informação de que um trabalho foi malfeito, ela pode perceber que uma característica associada à sua identidade foi utilizada como sinônimo de incompetência.
É dessa maneira que a linguagem pode ultrapassar a intenção individual e participar de algo maior. A Polícia Federal inclui expressões como “serviço de preto”, “lista negra”, “a coisa está preta” e outras formulações semelhantes em seu glossário de expressões racistas ou discriminatórias.
Outro exemplo aparece em “da cor do pecado”, muitas vezes utilizada como elogio, especialmente para mulheres negras, a expressão carrega uma história problemática porque associa a pele negra à ideia de pecado e, em determinados contextos históricos, à sexualização dos corpos negros.
Isso nos mostra algo importante: Nem toda expressão preconceituosa parece agressiva, algumas chegam disfarçadas de elogio.
Existe, porém, uma nuance necessária.
Não é correto transformar qualquer explicação popular sobre a origem de uma expressão em fato histórico simplesmente porque ela parece coerente. Algumas etimologias atribuídas a expressões consideradas racistas são contestadas por pesquisadores da língua portuguesa. A própria discussão sobre o chamado racismo linguístico reconhece que origem histórica e significado adquirido pelo uso não são necessariamente a mesma coisa.
Isso é importante porque combater o racismo não exige inventar uma história para cada palavra, em alguns casos, o problema está comprovadamente relacionado à história da escravidão já em outros, está principalmente no significado discriminatório que a expressão adquiriu e continua reproduzindo. São situações diferentes, embora ambas possam merecer reflexão.
A pergunta mais interessante talvez não seja apenas “de onde veio essa palavra?”, mas também “o que estamos dizendo quando a usamos hoje?”.
O inconsciente também aprende preconceitos, existe uma tendência humana de imaginar que só somos responsáveis por aquilo que pensamos conscientemente.
A psicanálise nos obriga a desconfiar um pouco dessa certeza.
Somos atravessados por discursos familiares, culturais e sociais muito antes de termos capacidade para questioná-los. Muitas ideias chegam até nós prontas, aprendemos o que é bonito, feio, certo, errado, superior, inferior, desejável ou vergonhoso antes mesmo de percebermos que estamos aprendendo.
Isso não significa que uma pessoa esteja condenada a repetir tudo aquilo que recebeu, significa que existe uma diferença entre “não ter percebido” e “não poder perceber”.
Quando alguém chama atenção para uma expressão racista e nossa primeira reação é “não vejo problema nenhum”, talvez valha a pena investigar por que aquilo parece tão natural, às vezes, a resistência não está protegendo a palavra, está protegendo o nosso sentimento de inocência.
Reconhecer que carregamos marcas de uma cultura racista não significa assumir uma culpa pessoal por tudo aquilo que aconteceu antes de nós, significa aceitar que podemos ter aprendido coisas que nunca tivemos oportunidade de questionar.
E questionar é diferente de condenar.
É justamente aí que começa uma forma mais madura de consciência.
A linguagem cotidiana guarda muito mais história do que imaginamos. Algumas palavras atravessaram gerações carregando significados que foram naturalizados pelo uso. Outras tiveram sua origem explicada de maneira equivocada, mas passaram a produzir efeitos discriminatórios no presente. Em ambos os casos, prestar atenção ao que dizemos pode revelar muito sobre aquilo que uma sociedade aprendeu a considerar normal.
Talvez o mais difícil não seja abandonar uma expressão, talvez seja perceber que, durante muito tempo, nós nem sequer enxergávamos o problema.
E quando uma palavra que parecia inocente começa a nos causar estranhamento, talvez não seja a linguagem que tenha mudado, talvez tenhamos finalmente começado a escutá-la.
Que outras palavras você repete todos os dias sem nunca ter parado para perguntar que história elas carregam?
Uma observação sincera sobre essa questão pode lhe causar muita surpresa e maturidade.
Paz e luz.




