Você já terminou um dia sem ter saído de casa e se sentiu mais exausto do que se tivesse carregado pedras? Ficou horas rolando o feed, consumiu conteúdo atrás de conteúdo, postou uma foto, checou os likes, respondeu stories, e chegou à noite com a sensação estranha de vazio? Se sim, não é preguiça, não é frescura e não é falta de disciplina. É algo mais profundo acontecendo aí dentro.
Essa fadiga que você não sabe nomear tem um nome, e ele não está nos manuais de produtividade. Ela nasce do esforço constante de sustentar um personagem que você mesmo criou, mas que nunca foi inteiramente você.
Antes de qualquer teoria, pense em como você se comporta nas redes sociais. A foto que você escolhe publicar, o texto que você reescreve três vezes até parecer espontâneo, os assuntos que você evita mencionar, as conquistas que você faz questão de mostrar. Tem uma curadoria acontecendo ali. Uma edição cuidadosa da sua própria vida.
Isso não é vaidade. É uma operação psíquica muito mais antiga do que o Instagram. A psicanálise tem um nome para ela: o Ideal do Ego.
Freud1 foi o primeiro a perceber que, desde cedo, a gente constrói dentro de si uma imagem do que seria “ser perfeito”. Um modelo interno montado a partir de figuras que admiramos, de expectativas que absorvemos, de padrões que o mundo ao redor nos ensinou a perseguir. Esse ideal não vem do nada, ele é moldado pelos pais, pela cultura, pelos grupos que queremos pertencer, pelas figuras que aparecem na mídia dizendo como a vida deveria ser vivida.
O problema começa quando esse ideal vai longe demais. Quando o “eu que eu poderia ser” se torna tão exigente, tão perfeito, tão inalcançável, que qualquer versão real de você parece insuficiente perto dele.
E é aí que as telas entram como gasolina nessa fogueira.
O sociólogo Guy Debord2, ainda nos anos 1960, já falava em uma “sociedade do espetáculo”, onde as aparências valem mais do que a experiência real. Ele não poderia imaginar que, décadas depois, cada pessoa teria na palma da mão uma plataforma de transmissão do próprio espetáculo, disponível 24 horas por dia.
O que as redes sociais fizeram foi dar ao Ideal do Ego um palco, uma plateia e uma contagem em tempo real de quantas palmas você recebeu.
Cada like virou uma micro-aprovação, cada visualização, um pequeno reconhecimento, e o algoritmo, esperto que é, aprendeu que você continua na plataforma quando essa ansiedade por validação fica acesa. Então ele alimenta exatamente isso.
O resultado?
Você nunca mais consegue simplesmente viver. Você vive e ao mesmo tempo já está editando mentalmente como vai apresentar isso para os outros. A experiência bruta, desordenada e imperfeita da vida vai sendo substituída pela performance cuidadosa de uma vida que parece melhor do que é.
Existe uma distância entre quem você realmente é e quem você tenta mostrar que é, sempre existiu, mas quando essa distância cresce demais, o custo psíquico de mantê-la se torna insustentável.
Pense em um ator que passa décadas interpretando o mesmo papel, mesmo que o personagem seja fascinante, chega um ponto em que ele não sabe mais onde o personagem termina e ele começa. Quem está exausto, o ator ou o personagem?
Você está vivendo algo parecido, só que o papel que você representa é o de uma versão “melhorada” de si mesmo. Mais realizado, mais feliz, mais bem-sucedido, mais saudável, mais iluminado, mais produtivo, entre outros “mais”.
E manter esse personagem no ar consome uma energia que deveria estar disponível para sua vida real.
O cansaço que você sente depois de um dia nas redes não é físico, você não moveu pedras. Mas seu aparelho psíquico trabalhou sem parar para gerenciar comparações, produzir respostas emocionais a estímulos em série, calibrar o que postar, o que esconder, o que curtir sem parecer desesperado e o que ignorar sem parecer arrogante.
É um trabalho cognitivo e emocional imenso. E o pior, é um trabalho a serviço de um personagem que não te pertence completamente.
Por isso você acorda já cansado. Por isso a sensação de vazio aparece mesmo quando “tudo está bem”. Por isso você sente aquela inquietação estranha que não sabe nomear, mas que sempre te leva de volta para o celular, como se a próxima rolagem fosse resolver algo que a anterior não resolveu.
Não vai resolver! Porque o que você está procurando não está nas telas. Está na distância que você colocou entre você e você mesmo.
O que fazer com tudo isso?
A resposta não está em deletar as redes, virar monge ou comprar um caderno de gratidão. Está em começar a notar a distância.
Quando você posta algo, existe uma necessidade de aprovação por trás?
Quando você compara sua vida com a de outra pessoa, está comparando realidade com realidade, ou a sua segunda-feira com a curadoria que alguém fez da semana toda?
A psicanálise não oferece atalhos, mas ela aponta para algo que liberta: Entender de onde vem esse Ideal de Ego tão exigente é o primeiro passo para parar de se torturar por não alcançá-lo. Porque o problema nunca foi que você é insuficiente, o problema é que o personagem que você tenta ser nunca existiu fora da tela.
Paz e luz.
1 – Sigmund Freud (1856–1939) foi um médico neurologista austríaco e o criador da Psicanálise. Ele revolucionou a forma como entendemos a mente humana ao investigar o inconsciente, revelando que grande parte de nossas ações e sentimentos é movida por desejos e memórias que nem sempre percebemos conscientemente. Suas teorias sobre os grupos e a cultura ainda são bases fundamentais para compreendermos como convivemos em sociedade hoje.
2 – Guy Debord (1931–1994) foi um filósofo, escritor e cineasta francês, principal figura do movimento situacionista. Em 1967, publicou “A Sociedade do Espetáculo”, obra em que argumenta que a vida nas sociedades modernas foi substituída por sua representação, ou seja, o que importa não é mais o que se vive, mas o que se aparenta viver. Obra profética, escrita décadas antes das redes sociais, que antecipou com precisão desconcertante a lógica dos likes, das selfies e da curadoria da própria imagem que define o comportamento digital contemporâneo.




