Há algo de imediato e visceral no mito do Minotauro, um herói entra num labirinto, encontra uma criatura que é metade homem, metade touro, e volta transformado. A imagem pega rápido porque fala de coragem, de deslize entre civilização e bestialidade, e, sobretudo, de um encontro que toda pessoa precisa experimentar consigo mesma: Olhar o próprio monstro nos olhos.
Quando lemos o mito com lentes psicanalíticas, o labirinto costuma representar o inconsciente, um espaço complexo, escuro, cheio de passagens que nos confundem, onde memórias, desejos e medos andam enrolados. Entrar no labirinto é atravessar camadas de defesa, as justificativas, as repetições de comportamento, os roteiros emocionais que repetimos sem querer, até chegar ao núcleo onde mora aquilo que tememos mais, o Minotauro. Essa leitura não é invenção nova, já é uma abordagem frequente nas interpretações psicológicas do mito.
O Minotauro, por sua vez, é uma figura ambígua. É fruto de uma união proibida de Pasífae1 e o touro e, por isso, pode ser lido como uma parte de nós que nasceu de um conflito não resolvido: Pulsões que foram estigmatizadas, raivas que foram proibidas e que acabaram se cristalizando num “bicho” interior. Em psicanálise, esse “bicho” não é simplesmente mau, é uma energia com funções, memórias e sentido. A tarefa é reconhecê-lo, entender de onde veio e, se possível, reintegrá-lo sem negar nossa humanidade.
Pensar em Teseu e no fio de Ariadne nos leva a outro ponto essencial, não se entra no labirinto totalmente sozinho. O fio é um símbolo poderoso da mediação, amor, vínculo, linguagem, ou uma técnica de terapia, que permite percorrer o próprio inconsciente e, ainda assim, voltar com direção. Em termos práticos, confrontar um trauma ou uma compulsão sem suporte é perigoso, fazer isso com uma rede de segurança, como por exemplo um terapeuta, um amigo, um ritual ou um método, transforma a aventura numa travessia possível.
Como isso se dá na vida real?
Imagine alguém que repete relacionamentos abusivos. A cada vez, uma parte sua se torna mais dura, mais desconfiada, o “touro” que reage com fúria ou fuga. A entrada no labirinto é iniciar um processo de autoconhecimento, mapear quando esses padrões começaram, quais emoções são acionadas, quais pensamentos justificam o comportamento. O encontro com o Minotauro é o momento em que, em vez de negar a raiva ou sufocá-la, você a observa, sem ser engolido por ela. Nem aniquilar o sentimento, nem se fundir com ele, o processo passa por reconhecer, nomear, colocar limites conscientes. Essa é a coragem que o mito destaca.
Do ponto de vista prático e terapêutico, há passos que reverberam com a metáfora:
- Preparar-se – Estabilizar sono, rede de apoio, recursos emocionais;
- Mapear – Identificar gatilhos e memórias;
- Entrar – Aceitar sentir sem agir impulsivamente;
- Confrontar – Trabalhar com o conteúdo, seja por narrativa, imaginação guiada, análise;
- Retornar – Integrar o aprendizado e criar novos hábitos.
Cada um desses passos equivale a um trecho do percurso no labirinto, nenhum é pirotécnico, todos são lentos e profundamente humanos.
É importante lembrar que “matar” o Minotauro não significa eliminar partes de si, isso seria outra forma de violência interna. Significa domar, compreender e inventar uma relação nova com aquilo que antes nos dominava. Na melhor das hipóteses, o que era monstruoso vira fonte de energia transformada, a raiva vira limite, a impulsividade vira criatividade, o medo vira cuidado estratégico. O herói que volta não é apenas o que vence uma fera, é o que aprendeu a andar com ela sem ser arrastado.
Por fim, o mito oferece um convite: Coragem não é ausência de medo, é a decisão de entrar no próprio labirinto com um fio na mão e alguém confiável ao lado. Não há pressa. Não há vergonha em precisar de ajuda. E, quando a saída aparece, não é o fim da história, mas o começo de outras escolhas, porque conhecer nossos monstros nos dá escolhas mais autênticas sobre como viver.
Paz e luz.
1 – Pasífae é uma figura proeminente da mitologia grega, conhecida como a rainha de Creta e mãe do Minotauro. Ela era filha do deus-sol Hélios e da ninfa Perseis, e tinha a famosa feiticeira Circe como irmã.




