O perigo da normalização de atitudes preconceituosasAproximadamente 6 min. de leitura

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Você já parou para pensar em como algumas frases ou comportamentos que nos deixariam indignados, passam quase despercebidos em uma mesa de jantar ou em um grupo de mensagens ou naquele conversa com amigos? É como se o nosso “termômetro moral” estivesse sofrendo uma espécie de descalibragem silenciosa. No dia a dia, percebo que essa anestesia social não é apenas uma mudança de costumes, mas um sintoma preocupante de como estamos lidando, ou deixando de lidar, com a nossa própria ética.

Normalizar não é apenas aceitar, é tornar “norma”. E quando o preconceito, o machismo, o racismo ou o bullying se tornam a norma, algo muito profundo na nossa estrutura psíquica começa a adoecer.

Na psicanálise, olhamos para isso através de um conceito que Hannah Arendt imortalizou como a “banalidade do mal”1, mas que Freud2 já tateava ao falar sobre como a civilização exige que reprimamos nossos impulsos mais primitivos. O problema é que, quando a sociedade começa a validar esses impulsos sob o disfarce de “piada”, “opinião” ou “liberdade”, nós criamos um ambiente onde o perverso ganha contornos de cotidiano.

Sabe aquela sensação de que “não é para tanto”? Esse é o primeiro sinal da normalização. Para não termos que lidar com a culpa ou com o desconforto de confrontar alguém, ou a nós mesmos, acionamos um mecanismo de negação3. É mais fácil rir de uma piada machista ou ignorar um comentário racista do que bancar o “chato” da vez.

O perigo é que, a cada vez que nos calamos, estamos reforçando um pacto de silêncio que desumaniza o outro. O bullying, por exemplo, muitas vezes é tratado como “coisa de criança” ou “fase”. Mas, psicanaliticamente, o que estamos ensinando é que o sofrimento alheio é um preço aceitável para a manutenção de uma hierarquia de poder. Estamos normalizando a falta de empatia.

Você já reparou como o discurso de ódio muitas vezes começa pequeno? Ele se infiltra pelas frestas do cotidiano. Começa com uma generalização sobre um grupo, passa pela ridicularização e termina na exclusão ou na violência física.

Quando normalizamos atitudes que ferem a ética e a moral, estamos, na verdade, tentando proteger o nosso próprio narcisismo. É o que chamamos de “projeção”4, eu coloco no outro, seja ele o negro, a mulher, o homossexual, o diferente, tudo aquilo que eu não suporto em mim. Ao diminuir o outro, eu tento, ilusoriamente, me sentir maior.

O problema é que essa conta nunca fecha. Uma sociedade que normaliza o abuso e a discriminação é uma sociedade que perdeu a capacidade de simbolizar a dor. E quando não conseguimos falar sobre a dor de forma ética, ela acaba retornando como sintoma, temos mais violência, mais ansiedade e um vazio existencial que nenhuma “normalidade” consegue preencher.

Aqui estão 10 exemplos de frases que ilustram essa normalização e banalização mencionadas no texto:

1 – “Ah, mas no meu tempo isso não era bullying, era só brincadeira de criança e ninguém morreu por causa disso.” – Banalização do bullying e negação do sofrimento psíquico.

2 – “Hoje em dia não se pode mais falar nada, tudo é mimimi.” – Uso do termo “mimimi” para desqualificar a dor do outro e evitar a revisão de preconceitos.

3 – “Eu não sou preconceituoso, tenho até amigos que são [inserir minoria: negros, homossexuais, etc], mas essa atitude foi exagerada.” – Uso de uma suposta proximidade para validar um julgamento discriminatório.

4 – “Foi só uma piada, você está levando as coisas muito a sério.” – Uso do humor como escudo para esconder a agressividade e a perversidade.

5 – “Ele é de outra geração, a gente tem que dar um desconto para o que ele diz.” – Normalização de comportamentos problemáticos através da justificativa geracional.

6 – “Sempre foi assim, não vai ser agora que o mundo vai mudar.” – Apelo ao fatalismo para manter o status quo e evitar a responsabilidade ética.

7 – “Se ela estivesse vestida de outra forma, talvez ele não tivesse feito esse comentário.” – Transferência da culpa para a vítima, normalizando o assédio ou o machismo.

8 – “Não vamos misturar política com amizade, vamos focar no que nos une.” – Uso da “neutralidade” para silenciar o debate sobre atitudes antiéticas.

9 – “Ele é uma pessoa tão boa, trabalha tanto… aquele comentário foi só um deslize isolado.” – Uso de qualidades positivas em outras áreas para “anestesiar” a gravidade de um ato preconceituoso.

10 – “Isso é coisa da cabeça dele, ele que é muito sensível e vê problema em tudo.” – Gaslighting: Invalidar a percepção de quem sofre o preconceito, tornando a vítima o “problema”.

Essas frases funcionam como mecanismos de defesa social que mantêm a “banalidade do mal” operante no nosso cotidiano, podemos citar dezenas de outras nesse contexto.

O caminho para reverter essa normalização não é simples, mas é necessário. Ele passa pelo que chamamos de alteridade, ou seja, o reconhecimento genuíno de que o outro é um sujeito, com desejos e dores tão legítimos quanto os nossos.

Não podemos nos dar ao luxo de sermos “neutros”. Como dizia o psicanalista Contardo Calligaris5, a ética não é uma lista de regras, mas a nossa capacidade de nos responsabilizarmos pelo efeito que causamos no mundo. Questionar aquele comentário preconceituoso, não rir da piada que diminui alguém e, principalmente, olhar para os nossos próprios preconceitos internos é um exercício clínico e social constante.

Se nos tornarmos indiferentes à banalização do mal, corremos o risco de acordar em um mundo onde a humanidade se tornou apenas um conceito teórico, e não uma prática diária.

A cura, tanto no divã quanto na sociedade, começa pelo reconhecimento da verdade. E a verdade é que o preconceito nunca é “normal”. Ele é sempre uma ferida que precisa de atenção, e não de silêncio.

Lembre-se sempre que o que você tolera nos outros revela muito sobre o que você ainda não resolveu em si mesmo.

Paz e luz.

 

1 – Banalidade do Mal: Conceito desenvolvido por Hannah Arendt (1906–1975) para descrever como pessoas comuns podem cometer atos terríveis simplesmente por seguirem ordens ou normas sociais sem questionar, perdendo a capacidade de julgamento moral.

2 – Sigmund Freud (1856–1939) foi um médico neurologista austríaco e o criador da Psicanálise. Ele revolucionou a forma como entendemos a mente humana ao investigar o inconsciente, revelando que grande parte de nossas ações e sentimentos é movida por desejos e memórias que nem sempre percebemos conscientemente. Suas teorias sobre os grupos e a cultura ainda são bases fundamentais para compreendermos como convivemos em sociedade hoje.

3 – Negação: Um mecanismo de defesa psíquico onde o indivíduo recusa-se a reconhecer um aspecto da realidade externa ou da experiência interna que seria doloroso ou insuportável de admitir.

4 – Projeção: Processo pelo qual o sujeito expulsa de si e localiza no outro qualidades, sentimentos ou desejos que ele desconhece ou recusa em si mesmo. É uma defesa clássica presente em comportamentos preconceituosos.

5 – Contardo Calligaris (1948–2021): Foi um renomado psicanalista, escritor e colunista italiano radicado no Brasil. Com um olhar aguçado sobre a cultura e o comportamento, Calligaris tornou-se uma das vozes mais influentes do país ao transpor os conceitos da psicanálise para o cotidiano, discutindo temas como ética, felicidade, dor e as complexidades das relações humanas na contemporaneidade.

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