Os arquétipos nas religiõesAproximadamente 10 min. de leitura

Os arquétipos nas religiões
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Você já percebeu que personagens religiosos de culturas completamente diferentes, às vezes separadas por milhares de quilômetros e por séculos de história, parecem contar histórias muito parecidas?

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  • Uma mãe que protege o filho;
  • Um herói que enfrenta um monstro;
  • Um sábio que aparece para orientar quem está perdido;
  • Uma figura que morre e retorna;
  • Um personagem que representa a ordem, enquanto outro parece existir justamente para desafiá-la.

Coincidência?

Talvez essa seja uma daquelas perguntas que merecem um pouco mais de calma antes de receber uma resposta.

Quando olhamos para as religiões com atenção, encontramos figuras muito diferentes entre si, pertencentes a culturas, épocas e sistemas de crenças distintos. Mas, por trás dessas diferenças, algumas imagens parecem insistir em aparecer, e é justamente aqui que Jung¹ entra nessa história.

Na psicologia analítica de Jung, os arquétipos são padrões profundos da experiência humana que se manifestam por meio de imagens, símbolos, mitos, sonhos e histórias. Eles fazem parte do chamado inconsciente coletivo e não devem ser confundidos com personagens prontos, como se existisse dentro da nossa cabeça uma pequena biblioteca contendo todos os deuses e heróis da humanidade.

O arquétipo é mais parecido com uma estrutura, é o padrão por trás da imagem.

Por isso, o arquétipo do Herói pode aparecer em um santo cristão, em um deus hindu ou em um personagem de uma antiga mitologia. As figuras são diferentes, mas a experiência simbólica que elas expressam pode guardar uma semelhança. É como se diferentes culturas encontrassem diferentes personagens para contar uma história que, em algum nível, já conhecemos.

E existe uma observação importante aqui: Isso não significa que Jesus seja Krishna, que Maria seja Ísis ou que Loki seja o equivalente de qualquer personagem cristão. As tradições religiosas possuem significados próprios e não podem ser reduzidas umas às outras.

A comparação é outra.

Estamos olhando para as figuras como “expressões simbólicas de padrões arquetípicos” e quando fazemos isso, algumas semelhanças ficam bastante interessantes.

Comecemos por uma figura que praticamente dispensa apresentações: São Jorge.

O santo montado em seu cavalo, enfrentando o dragão, tornou-se uma das imagens mais conhecidas do cristianismo popular, ao observar temos um homem diante de uma criatura ameaçadora, colocando sua coragem a serviço de algo maior do que ele próprio.

Agora olhe para outras tradições.

Héracles enfrenta monstros e realiza trabalhos praticamente impossíveis na mitologia grega, já Thor enfrenta gigantes e outras forças ameaçadoras na tradição nórdica, enquanto Rama combate Ravana no hinduísmo e atravessa uma jornada marcada por dever, sofrimento e coragem.

As histórias são iguais?

Com certeza não, mas existe algo familiar nelas.

O Herói é aquele que precisa sair da segurança conhecida e enfrentar aquilo que ameaça sua ordem interior ou exterior. O dragão pode ser um monstro, um gigante, um demônio ou qualquer outra criatura. Simbolicamente, porém, ele também pode representar aquilo que precisamos enfrentar dentro de nós.

Pode ser o medo, a insegurança ou o caos, por exemplo, ou seja, aquilo que gostaríamos de evitar.

Talvez seja por isso que histórias de heróis nunca desapareçam, apenas mudam as roupas, as armas e os nomes, mas continuamos reconhecendo a história, porque, em algum momento, todos nós precisamos enfrentar nossos próprios dragões.

Agora pense em uma mãe, não apenas na mãe de uma família, mas na imagem daquela que acolhe, alimenta, protege e dá origem.

No cristianismo, uma das expressões mais poderosas dessa imagem é Maria.

Maria é mãe, protetora e símbolo de acolhimento. Sua imagem atravessou séculos e culturas, aparecendo em inúmeras representações de devoção, cuidado e misericórdia.

Mas a imagem da mãe protetora é muito anterior ao cristianismo.

No Egito antigo encontramos Ísis, associada à maternidade, proteção e restauração, já na mitologia grega temos Deméter, profundamente ligada à fertilidade, à maternidade e ao ciclo da vida, enquanto no hinduísmo, Parvati apresenta diferentes aspectos do princípio feminino, incluindo sua dimensão materna e protetora.

Perceba que não estamos dizendo que essas deusas são “a mesma personagem”, elas não são.

Estamos observando algo mais profundo: A necessidade humana de representar simbolicamente aquela força que gera, alimenta e protege.

Mas a Grande Mãe também possui uma face menos confortável. Toda mãe pode acolher, mas a imagem materna também pode representar excesso de proteção, dependência, controle e dificuldade de deixar crescer.

Como todo arquétipo, ela possui luz e sombra.

Agora vamos observar outro arquetipo.

Existe algo curioso nas histórias religiosas: Muitas vezes, uma criança aparentemente frágil carrega uma promessa enorme, no cristianismo, temos o “Menino Jesus”, que nasce em condições humildes, mas sua existência é apresentada como portadora de uma transformação que ultrapassa sua própria infância, já no hinduísmo, encontramos “Krishna criança”, cuja infância é marcada por histórias que já revelam sua natureza divina, enquanto no antigo Egito, Hórus aparece em representações relacionadas à sua mãe Ísis e à continuidade da linhagem de Osíris.

A criança, nesse contexto, não representa apenas inocência, ela representa possibilidade, aquilo que ainda não está pronto, mas pode se tornar alguma coisa.

Jung percebeu a força simbólica da Criança como imagem de renovação, potencial e transformação. É a pequena semente que ainda não parece uma árvore, mas já carrega dentro de si aquilo que poderá se tornar, talvez seja por isso que a imagem da criança divina seja tão poderosa, ela nos lembra que o novo quase sempre começa pequeno.

Agora observe que toda boa jornada precisa, em algum momento, de alguém que saiba alguma coisa que o protagonista ainda não sabe.

No imaginário cristão, podemos encontrar essa função em figuras como São Pedro, especialmente quando o observamos como apóstolo, transmissor da tradição e referência para a comunidade nascente, já em outras tradições, encontramos Moisés, como líder e legislador do povo hebreu, e Lao-Tsé, associado à sabedoria do Taoismo, enquanto na tradição hindu, figuras como Vyasa também assumem uma importante função de transmissão e organização do conhecimento sagrado.

O Velho Sábio é aquele que conhece um caminho porque já percorreu alguma parte dele, ele não precisa necessariamente carregar uma longa barba branca.

Pode aparecer como um professor, um avô, um mestre espiritual ou até como aquela pessoa que, em determinado momento da nossa vida, diz uma frase simples que muda completamente a maneira como enxergamos um problema. O mais interessante é que o Velho Sábio não deveria viver a jornada pelo herói, ele apenas mostra que existe um caminho e quem precisa percorrê-lo somos nós.

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Agora chegamos a uma parte menos confortável.

Se existem figuras que representam a luz, inevitavelmente aparecem aquelas que representam aquilo que a consciência prefere não olhar.

No cristianismo, Judas Iscariotes tornou-se uma das maiores imagens simbólicas da traição, e é importante distinguir que Judas não é simplesmente “o arquétipo da Sombra”. Nenhum personagem religioso pode ser reduzido dessa maneira, entretanto simbolicamente, sua história pode ser observada a partir da ideia de Sombra, aquilo que ameaça, contradiz ou rompe a imagem consciente de ordem e fidelidade, já em outras tradições encontramos Set, no antigo Egito, associado ao conflito e à desordem em determinados ciclos míticos, enquanto Loki, na mitologia nórdica, frequentemente associado à transgressão e ao caos, e outras figuras que ocupam posições semelhantes de oposição, ambiguidade ou ruptura.

A Sombra, entretanto, não significa simplesmente “o mal”, esse é um erro bastante comum.

A Sombra é tudo aquilo que não queremos reconhecer em nós, pode conter raiva, inveja, agressividade e egoísmo, mas também pode guardar coragem, criatividade, sensualidade, espontaneidade e força que aprendemos a esconder.

É por isso que olhar para a Sombra pode ser tão desconfortável, às vezes, aquilo que mais condenamos nos outros é justamente aquilo que não conseguimos admitir em nós mesmos.

Talvez a seguir esteja a comparação mais delicada de todas.

Na psicologia de Jung, o Self representa a totalidade psíquica, não é simplesmente o ego. É uma imagem de integração, aquilo que reúne consciência e inconsciente e aponta para o processo de nos tornarmos inteiros.

No cristianismo, Cristo pode ser interpretado simbolicamente como uma imagem dessa totalidade. Não estamos fazendo uma afirmação teológica de que Cristo “é o Self”. Estamos observando sua força simbólica, que é a união entre dimensões humanas e divinas, sofrimento e transcendência, morte e renovação. Algo semelhante pode ser investigado, dentro de seus próprios contextos, em figuras como Krishna, Buda e Osíris. Cada tradição dá a essas figuras significados próprios.

O que interessa à leitura arquetípica é perceber que todas podem representar, de maneiras diferentes, uma transformação que ultrapassa o indivíduo comum e aponta para uma forma mais ampla de existência, é o indivíduo encontrando algo maior dentro de si.

Quando começamos a observar as religiões através dos arquétipos, alguma coisa muda.

Deixamos de perguntar apenas: Qual religião está certa?

E começamos a perguntar: Por que a humanidade continua criando imagens tão parecidas?

Talvez porque, apesar de todas as diferenças culturais, ainda sejamos seres humanos lidando com problemas bastante antigos.

  • Precisamos de proteção.
  • Temos medo;
  • Enfrentamos perdas;
  • Buscamos orientação;
  • Queremos encontrar um sentido;
  • Precisamos amadurecer;
  • Lutamos contra aquilo que existe dentro de nós e que preferíamos não enxergar;
  • E, em algum momento da vida, todos precisamos renascer de alguma maneira.

As religiões deram nomes, rostos e histórias diferentes para essas experiências.

Jung nos oferece uma lente para observar aquilo que existe por trás dessas imagens. O herói muda de nome, a mãe muda de roupa, o sábio fala línguas diferentes, o monstro assume formas diferentes, mas a experiência humana que está por trás deles continua reconhecível.

Talvez seja justamente por isso que, quando lemos um mito antigo, ouvimos uma passagem religiosa ou observamos uma imagem sagrada de uma cultura distante, algumas vezes temos uma sensação estranha de familiaridade, como se já conhecêssemos aquela história.

Talvez não conheçamos o personagem, mas conhecemos aquilo que ele representa e talvez seja esse o verdadeiro poder dos arquétipos, eles não nos dizem apenas quem são os deuses, santos ou heróis das histórias, eles também nos ajudam a perguntar “quem somos nós quando encontramos essas figuras dentro de nós mesmos”.

Observe de naneira mais ampla, sem preconceitos, e com certeza identificará arquétipos em várias situações a sua volta.

Paz e luz.

 

1 – Carl Gustav Jung (1875–1961): Foi um psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundador da psicologia analítica. Desenvolveu conceitos como inconsciente coletivo, arquétipos, Sombra, Persona e Self, valorizando os sonhos, mitos e símbolos como elementos importantes para compreender a experiência psíquica humana.

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