Persona: A máscara social que usamos e o perigo de esquecer quem está por trás delaAproximadamente 5 min. de leitura

persona esquecer
Leia o artigo

Imagine por um instante que a vida é um grande palco. Não um palco de teatro, mas o palco da convivência, do trabalho, da família, das redes sociais. E, como em qualquer peça, nós vestimos um figurino. Esse figurino, que é muito mais do que a roupa que escolhemos, é a Persona.

Atendimento em Psicanálise (Online)

Na psicologia analítica de Carl Gustav Jung1, a Persona é o arquétipo da adaptação. É a nossa “máscara social”, o rosto que apresentamos ao mundo para sermos aceitos, para cumprir papéis e, acima de tudo, para sobrevivermos em sociedade. Ela é a soma de tudo o que queremos parecer: o profissional competente, o pai ou mãe dedicado, o amigo espirituoso, o intelectual engajado, entre outros.

E aqui, é fundamental que fique claro, a Persona não é, em si, uma mentira. Ela é uma necessidade. Pense bem:

Você agiria da mesma forma numa reunião de diretoria e num churrasco de família?

Falaria com o mesmo tom e usaria as mesmas palavras com seu filho pequeno e com um juiz?

Claro que não. A Persona é essa ferramenta psíquica que nos permite transitar entre os diferentes mundos, ajustando nosso comportamento às expectativas e demandas de cada ambiente. Sem ela, seríamos como um motorista que tenta dirigir um carro de corrida na rua de um vilarejo, ou seja, inadequados e, provavelmente, perigosos.

O problema, como quase tudo na vida, não está na ferramenta, mas no uso que fazemos dela. O perigo começa quando nos identificamos excessivamente com a máscara. Jung chamou isso de inflação da Persona. É quando o ator se esquece de que é um ator e passa a acreditar que o personagem é sua identidade total.

Quantas vezes você já não viu ou viveu isso? O executivo que não consegue relaxar no fim de semana porque o papel de “homem de sucesso” exige uma performance constante. A mãe que se anula completamente em função do papel de “mãe perfeita”, perdendo o contato com seus próprios desejos e individualidade. O intelectual que só consegue se comunicar através de jargões complexos, incapaz de ter uma conversa simples e humana.

Nesses casos, a Persona, que deveria ser um traje flexível, torna-se uma armadura rígida. Ela nos protege, sim, mas também nos aprisiona. O preço desse processo é alto, perdemos o contato com o nosso Self, o centro da nossa totalidade psíquica, a semente do que realmente somos. E, ao perdermos o Self de vista, a vida começa a soar oca, vazia, mesmo que a máscara social esteja brilhando.

A inflação da Persona é uma das grandes geradoras de sofrimento psíquico na sociedade moderna. A pessoa vive para o olhar de fora, para o aplauso, para a validação externa. Mas, por dentro, sente uma profunda solidão e uma ansiedade que não cessa. É o medo constante de que a máscara caia e revele o que está por baixo, um ser humano comum, com falhas, medos e, principalmente, com uma Sombra2, outro arquétipo junguiano que guarda os aspectos de nós mesmos que reprimimos ou negamos.

O colapso da Persona é um momento de crise, mas também de profunda oportunidade. É quando a vida, ou o inconsciente, nos força a tirar a máscara. Pode vir na forma de um burnout, de uma depressão, de uma perda significativa ou de uma simples, mas avassaladora, pergunta: “Quem sou eu, de verdade, quando ninguém está olhando?”.

O objetivo da vida, segundo Jung, é o processo de Individuação, que é o caminho para nos tornarmos o ser único que realmente somos. E a individuação passa, necessariamente, pelo reconhecimento da Persona. Não se trata de jogá-la fora, o que seria ingênuo e socialmente inviável, mas de colocá-la no seu devido lugar.

Precisamos aprender a usar a máscara sem nos tornarmos a máscara. Isso exige um trabalho interno de honestidade brutal:

1 – Reconhecer a Máscara: Identificar os papéis que você cumpre e o que eles exigem.

2 – Conectar-se com o Self: Dar espaço para a sua essência, para o que você sente e deseja, mesmo que isso não se encaixe no seu papel social.

3 – Integrar a Sombra: Aceitar que você não é apenas o que a máscara mostra, mas também o que ela esconde.

A psicoterapia é, nesse sentido, um espaço seguro para esse desnudamento. É onde podemos, aos poucos, tirar a armadura e descobrir que o rosto por baixo dela não é feio ou fraco, mas apenas humano.

A Persona é um traje de gala para a festa da vida. Mas, quando a festa acaba, precisamos ter a coragem de voltar para casa e nos olhar no espelho sem pintura. Só assim deixamos de ser meros personagens para, enfim, sermos nós mesmos. E essa é a única performance que realmente vale a pena.

Paz e luz.

 

1 – Carl Gustav Jung (1875-1961): Psiquiatra suíço e fundador da Psicologia Analítica. Jung expandiu a compreensão do inconsciente, introduzindo conceitos como arquétipos e o inconsciente coletivo, e enfatizou a importância dos símbolos e da jornada individual de autoconhecimento.

2 – Sombra: A teoria formulada por Carl Gustav Jung, descreve os aspectos da personalidade que a consciência rejeita ou reprime, impulsos, lembranças e traços que não se encaixam na imagem que temos de nós mesmos. Esses conteúdos, embora ocultos, continuam a influenciar pensamentos, emoções e comportamentos, surgindo muitas vezes em forma de projeções ou sintomas psíquicos, como a ansiedade. Integrar a sombra não significa “eliminar o negativo”, mas reconhecer e dar lugar a essas partes esquecidas, tornando-se mais inteiro e autêntico.

Autor

Você pode gostar...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Traduzir »
Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support