Por que repetimos os mesmos rituais antes de grandes acontecimentos? A psique diante da passagem e da incerteza.Aproximadamente 8 min. de leitura
Antes de uma prova, uma viagem, uma consulta ou uma apresentação, algumas pessoas repetem pequenos gestos que parecem não ter importância, mas que ajudam a atravessar o momento em que ainda não sabemos o que virá.
Há quem escolha sempre a mesma roupa para fazer uma prova, quem toma o mesmo café antes de uma reunião importante, quem organiza a mesa de determinado modo antes de começar um trabalho, escuta uma música específica antes de subir ao palco ou precisa passar alguns minutos em silêncio antes de entrar em uma situação que considera decisiva.
À primeira vista, são apenas hábitos. Mas nem sempre.
Quando um acontecimento importante se aproxima algo muda na experiência do tempo, existe um antes conhecido e um depois ainda indefinido, entre os dois aparece uma espécie de intervalo. Sabemos que alguma coisa vai acontecer, mas ainda não sabemos exatamente como estaremos quando ela terminar, e é nesse espaço que pequenos rituais podem ganhar importância.
Hábito e ritual não são exatamente a mesma coisa. Escovar os dentes todos os dias é um hábito, já fazer sempre os mesmos movimentos antes de uma apresentação, atribuindo a essa sequência um significado especial, aproxima o comportamento de um ritual pessoal.
A diferença não está apenas na repetição, está no sentido que a pessoa atribui ao gesto.
Um ritual pessoal pode funcionar como uma maneira de marcar que algo importante está prestes a começar, ele cria uma pequena fronteira entre o cotidiano e aquilo que exige outra disposição psíquica.
Isso ajuda a compreender por que determinadas ações aparentemente banais podem adquirir uma importância desproporcional ao seu efeito prático, a ação pode não modificar diretamente o acontecimento, mas modifica a maneira como a pessoa se posiciona diante dele.
Pesquisas experimentais também encontraram efeitos desse tipo, estudos publicados na área de psicologia indicaram que a realização de rituais antes de tarefas de alta pressão pode reduzir a ansiedade e, em determinadas condições, favorecer o desempenho. Os pesquisadores destacam que a percepção de estar realizando um ritual, e não apenas executando uma sequência aleatória de movimentos, parece ser relevante para esse efeito.
Isso não significa que todo ritual seja terapêutico, nem que repetir determinados gestos produza controle real sobre aquilo que vai acontecer, o ponto é outro. A repetição pode oferecer uma experiência de organização justamente quando a realidade ainda não oferece garantias.
A antropologia ajuda a ampliar essa questão, em “Os Ritos de Passagem”, publicado originalmente em 1909, Arnold van Gennep1 observou que muitas sociedades criam ritos para acompanhar mudanças importantes na vida. Nascimento, passagem para a vida adulta, casamento e outras transformações podem ser acompanhados por práticas que marcam a saída de uma condição, um período de transição e a entrada em uma nova posição.
Victor Turner2 aprofundou posteriormente a ideia de liminaridade. O termo se refere justamente à condição de estar no limiar, entre uma posição anterior e outra que ainda não foi plenamente assumida. É um momento marcado pela suspensão temporária de referências conhecidas e pela possibilidade de reorganização.
Mesmo quando não existe um rito coletivo, algo dessa estrutura pode aparecer na vida cotidiana. Imagine alguém prestes a viajar sozinho para outro país pela primeira vez. Na noite anterior, confere a mala várias vezes, escolhe cuidadosamente a roupa da viagem e repete uma pequena sequência antes de sair de casa. Parte disso é simplesmente organização, mas pode haver também uma necessidade simbólica de preparar a passagem.
A pessoa ainda está em casa, mas já não está inteiramente na situação anterior, a viagem começou antes da partida.
Algo semelhante pode acontecer antes de uma consulta médica importante. Organizar documentos, tomar banho, separar exames e repetir mentalmente o que será perguntado são atitudes práticas, entretanto em alguns casos, essa preparação também pode servir para conter a angústia produzida por aquilo que ainda não pode ser conhecido.
A psicanálise pode olhar para esses comportamentos sem perguntar imediatamente se eles são certos ou errados, e uma questão mais interessante seria: O que essa repetição representa para aquela pessoa?
Diante da incerteza, o psiquismo pode procurar alguma forma de continuidade, repetir uma sequência conhecida cria uma experiência de familiaridade no instante em que algo desconhecido se aproxima. Nesse sentido, o ritual pode funcionar como uma pequena construção simbólica. Ele não elimina a incerteza, mas dá a ela uma forma que pode ser suportada.
Freud3 se interessou pela relação entre repetição, ritual e conflito psíquico. Em seu texto de 1907 sobre atos obsessivos e práticas religiosas, aproximou determinados cerimoniais obsessivos de práticas ritualizadas, observando especialmente sua relação com ansiedade, culpa e necessidade de proteção.
Essa aproximação, porém, precisa ser utilizada com cuidado. Não significa que todo ritual cotidiano seja um comportamento obsessivo, a própria compreensão clínica atual do transtorno obsessivo compulsivo envolve obsessões recorrentes e indesejadas, e compulsões realizadas sob uma sensação de necessidade, frequentemente para reduzir sofrimento ou ansiedade.
A diferença é importante, uma pessoa pode gostar de ouvir determinada música antes de uma apresentação e continuar funcionando normalmente se não puder ouvi-la, já outra pode sentir que precisa repetir uma sequência específica, caso contrário algo terrível acontecerá, e experimentar sofrimento significativo quando não consegue realizá-la, são experiências muito diferentes.
Existe ainda outro aspecto que merece atenção. Ritualizar não significa necessariamente estar dominado pela ansiedade, os seres humanos também utilizam rituais para celebrar, pertencer, lembrar, despedir se e reconhecer mudanças. Um aniversário, uma formatura ou uma cerimônia de casamento não existem apenas para diminuir medo, eles também produzem significado compartilhado.
O mesmo pode ocorrer na vida privada.

Uma pessoa que sempre prepara o café da mesma maneira antes de escrever pode estar simplesmente construindo um espaço subjetivo para entrar naquele estado de concentração, outra pode guardar um pequeno objeto antes de uma viagem porque ele representa alguém importante. O gesto repetido não precisa esconder um problema, pode expressar uma relação simbólica com aquilo que está sendo vivido.
Talvez seja justamente essa ambiguidade que torne os rituais tão interessantes para a psicanálise. Às vezes repetimos para controlar, ]ás vezes repetimos para lembrar, às vezes repetimos para nos tranquilizar e, em outras situações, repetimos porque precisamos sentir que existe uma passagem entre quem éramos antes daquele acontecimento e quem seremos depois dele.
O ritual não conhece o futuro, mas pode ajudar o psiquismo a reconhecer que o futuro está chegando. No fundo, talvez seja por isso que determinados gestos se tornam tão importantes justamente antes dos grandes acontecimentos. Quando a realidade nos coloca diante de algo que ainda não podemos dominar, criamos pequenas formas de continuidade.
E talvez a pergunta mais interessante não seja por que fazemos sempre o mesmo gesto, mas o que estamos tentando simbolizar quando sentimos necessidade de fazê-lo.
Que passagem da sua própria vida você percebeu primeiro no momento em que começou a repetir certos gestos?
Paz e luz.
1 – Arnold van Gennep (1873–1957): Antropólogo francês conhecido principalmente por seus estudos sobre os ritos de passagem, expressão que consolidou em sua obra Les Rites de Passage (1909). Van Gennep mostrou que diferentes sociedades utilizam cerimônias e práticas simbólicas para marcar mudanças importantes na vida, como nascimento, iniciação, casamento e morte. Para ele, essas passagens costumam envolver três momentos: A separação da condição anterior, uma etapa intermediária de transição e a incorporação a uma nova condição. Seu trabalho tornou-se uma referência fundamental para os estudos antropológicos sobre rituais e influenciou posteriormente outros autores.
2 – Victor Turner (1920–1983): Antropólogo britânico conhecido por seus estudos sobre rituais, símbolos e processos de mudança social. A partir das ideias de Arnold van Gennep, desenvolveu o conceito de liminaridade, referente ao período intermediário de um rito de passagem, quando o indivíduo se encontra entre uma condição anterior e outra que ainda não se consolidou. Para Turner, esse momento de transição pode suspender temporariamente posições sociais habituais e favorecer novas formas de experiência, vínculo e identidade. Entre suas obras mais conhecidas estão The Ritual Process (1969) e Dramas, Fields, and Metaphors (1974).
3 – Sigmund Freud (1856–1939): Médico neurologista austríaco e fundador da psicanálise. Em 1907, no texto Atos obsessivos e práticas religiosas, investigou possíveis relações entre determinados atos ritualizados, ansiedade, culpa e conflitos inconscientes. Freud observou que alguns comportamentos aparentemente sem sentido podem adquirir uma função psíquica para quem os realiza. Essa reflexão contribuiu para o desenvolvimento de sua compreensão sobre os sintomas obsessivos e sobre a maneira como conflitos inconscientes podem encontrar expressão em ações repetitivas.



