A família que só conversa sobre tarefas: O que o excesso de praticidade pode esconder dos vínculos.Aproximadamente 7 min. de leitura

A família que só conversa sobre tarefas
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“Quem vai buscar as crianças?”

Atendimento em Psicanálise (Online)

“Você pagou a conta de luz?”

“Que horas chegamos no domingo?”

“Tem comida para amanhã?”

Em muitas famílias, boa parte das conversas acontece assim. Tudo funciona, as informações circulam, os compromissos são cumpridos e as responsabilidades parecem razoavelmente distribuídas. Existe comunicação, mas quase sempre sobre aquilo que precisa ser feito.

O que acontece, porém, quando alguém está triste, magoado, ressentido ou precisando de reconhecimento?

Às vezes, o assunto muda rapidamente, em outras, ninguém pergunta e a pessoa também não fala. A família continua funcionando, mas alguma coisa permanece sem lugar.

A pergunta que interessa aqui não é se uma família deve conversar sobre tarefas, é evidente que precisa, a questão é outra: O excesso de praticidade pode, em algumas famílias, funcionar como uma maneira de evitar a intimidade emocional?**

A comunicação doméstica resolve problemas concretos. Quem compra, quem cozinha, quem leva, quem paga, quem busca, esse tipo de conversa é necessário e pode até oferecer segurança ao grupo, mas o problema aparece quando ele se transforma praticamente na única forma possível de comunicação.

Nesse caso, dizer “você pode fazer isso?” torna-se mais fácil do que dizer “senti falta de você”, perguntar “você vai chegar que horas?” parece menos arriscado do que perguntar “por que estamos tão distantes?”, reclamar da louça pode ser mais suportável do que admitir uma sensação de abandono.

Não significa que exista, por trás de cada conversa prática, um sentimento reprimido, seria exagerado interpretar assim, mas em alguns contextos familiares, a organização das tarefas pode ocupar um espaço que também poderia ser destinado ao encontro entre as pessoas.

Pesquisas sobre ambientes de comunicação familiar encontraram associações entre maior expressão familiar, menor evitação de conflitos e diferentes aspectos do bem estar de adultos jovens. Isso não significa que toda família deva expor constantemente seus sentimentos, mas mostra que a maneira como uma família lida com expressão emocional e conflito pode ter consequências para seus membros.

Do ponto de vista psicanalítico, vale considerar que nem todo silêncio é vazio, às vezes, o silêncio protege.

Uma família pode aprender, ao longo dos anos, que determinados assuntos provocam discussões, afastamentos, acusações ou lágrimas. Aos poucos, os membros passam a contornar esses temas. Não necessariamente fazem isso de maneira consciente, o próprio grupo encontra uma forma de funcionar evitando aquilo que parece perigoso demais para ser tocado.

A defesa, nesse sentido, não precisa ser entendida como mentira ou fingimento, pode ser uma maneira de preservar algum equilíbrio psíquico diante de algo difícil.

Imagine um pai que pergunta diariamente sobre escola, trabalho e compromissos do filho, mas nunca pergunta como ele está se sentindo. O filho percebe que falar sobre notas é seguro, falar sobre medo, fracasso ou insegurança parece mais complicado. Com o tempo, os dois podem desenvolver uma relação eficiente, educada e aparentemente tranquila, na qual existe cuidado, mas pouco espaço para aquilo que não pode ser resolvido com uma providência.

Em outra família, um casal pode discutir repetidamente sobre dinheiro, limpeza e divisão das tarefas domésticas, a discussão parece prática, mas talvez carregue também uma disputa menos explícita: Quem se sente mais sobrecarregado? Quem sente que oferece mais? Quem gostaria de ser reconhecido? Quem está ressentido?

Não é possível saber a resposta apenas observando a discussão, a interpretação precisa considerar a história daquele vínculo.

Algumas famílias também estabelecem papéis muito rígidos, onde um é sempre o responsável, enquanto o outro é o conciliador, já um terceiro é aquele que causa problemas, ainda existe quem cuide de todos e quem nunca fale sobre o que sente.

Essas posições podem se tornar tão habituais que deixam de ser percebidas como escolhas. A pessoa responsável continua resolvendo tudo, mesmo quando está exausta, o conciliador evita qualquer conflito, o filho considerado forte aprende que não deve demonstrar fragilidade.

A teoria dos sistemas familiares de Murray Bowen1 entende a família como uma unidade emocional na qual os membros permanecem interdependentes, mesmo quando parecem emocionalmente distantes. A teoria também descreve formas pelas quais as pessoas podem administrar tensões relacionais evitando determinados assuntos ou reduzindo o contato emocional.

A contribuição dessa perspectiva não está em dizer que existe uma causa única para os conflitos familiares, está em lembrar que o comportamento de uma pessoa também participa de uma rede de relações.

Aqui é importante fazer uma distinção, uma família não precisa transformar cada jantar em uma reunião emocional. Existem pessoas mais reservadas, períodos de maior cansaço e situações em que simplesmente não há disposição para conversar, privacidade também pode ser saudável.

Além disso, falar sobre sentimentos não garante uma relação melhor. Pesquisas sobre comunicação em conflitos íntimos mostram que diferentes formas de comunicação podem produzir efeitos distintos conforme o contexto e a natureza do problema. Em algumas situações, uma abordagem direta é necessária, em outras, quando existe muita defensividade, a maneira de abordar a questão faz diferença.

Portanto, não se trata de trocar a praticidade por uma obrigação de falar sobre tudo, talvez a questão seja perceber quando a praticidade deixou de ser apenas organização e passou a ser a única linguagem permitida dentro daquela casa.

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Existe uma diferença delicada entre uma família que conversa pouco e uma família na qual certos sentimentos não podem ser conversados. Na primeira, pode haver simplesmente um estilo de convivência, já na segunda pode existir uma espécie de acordo silencioso onde determinadas coisas não serão perguntadas, determinadas dores não serão nomeadas, determinados conflitos permanecerão escondidos atrás da rotina.

E esse acordo pode funcionar durante muitos anos, até que alguém adoece, envelhece, sai de casa, se separa ou simplesmente começa a desejar uma relação diferente. Nesse momento, talvez apareça uma pergunta difícil: Se sempre fomos tão eficientes em cuidar das coisas, por que é tão difícil saber como cuidar do que sentimos uns pelos outros?

A psicanálise pode ajudar a sustentar essa pergunta sem transformá-la imediatamente em diagnóstico ou culpa. Às vezes, aquilo que parece frieza foi uma forma aprendida de proteção, aquilo que parece indiferença pode conter medo de rejeição, uma cobrança insistente pode esconder uma necessidade de reconhecimento ou um silêncio prolongado pode proteger tanto quem cala quanto quem não sabe como escutar.

Nenhuma dessas possibilidades deve ser tomada como explicação automática, o sentido de um comportamento depende da história singular de cada vínculo. Talvez algumas famílias não precisem falar mais sobre tudo, talvez precisem descobrir se ainda existe espaço para dizer aquilo que não serve para organizar a agenda, pagar uma conta ou resolver um problema.

Uma família pode funcionar muito bem como equipe e, ainda assim, ter dificuldade para existir como encontro.

Quando, na sua família, as tarefas terminam, o que permanece entre vocês que ainda não encontrou palavras?

Paz e luz.

 

1 – Murray Bowen (1913–1990): Psiquiatra norte americano e um dos principais formuladores da teoria dos sistemas familiares. A partir de sua experiência clínica e de pesquisas sobre relações familiares, desenvolveu a ideia de que os indivíduos não podem ser compreendidos isoladamente, pois permanecem emocionalmente ligados ao sistema familiar. Sua teoria descreve conceitos como diferenciação do self, triangulação e corte emocional, utilizados para compreender como ansiedade, conflitos e padrões de relacionamento podem circular entre os membros de uma família.

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