Quando defender um candidato político é defender uma parte de siAproximadamente 7 min. de leitura
A política costuma ser apresentada como uma disputa de ideias, projetos e interesses. Mas, em algumas situações, ela toca algo mais íntimo: A própria imagem que construímos de nós mesmos. É nesse ponto que a defesa de um candidato pode deixar de ser apenas uma escolha política e passar a funcionar como uma defesa de uma parte do próprio sujeito.
Imagine uma conversa entre amigos. Alguém menciona determinado candidato e outra pessoa aponta uma contradição, uma promessa não cumprida ou uma decisão difícil de justificar. A reação vem rapidamente: “Mas e o outro candidato?”. Em poucos segundos, a conversa deixa de examinar o fato apresentado e passa a procurar uma falha no adversário.
Isso acontece dos dois lados do espectro político. É curioso perceber que, em determinadas situações, a pessoa parece menos interessada em compreender o que aconteceu do que em proteger aquilo que escolheu acreditar. Mas por que uma crítica dirigida a um político pode provocar uma reação tão pessoal?
Talvez porque, em alguns casos, não estejamos defendendo apenas um candidato, o que estamos defendendo é aquilo que colocamos dentro dele.
Escolher um candidato não é uma decisão puramente racional. Valores, experiências familiares, expectativas sociais, medos, traumas, esperanças e identificações participam dessa escolha. Estudos sobre identificação política e raciocínio motivado indicam que nossas convicções podem influenciar a maneira como recebemos e avaliamos informações que confirmam ou ameaçam aquilo em que acreditamos.
A psicanálise permite acrescentar outra pergunta: O que essa escolha representa para aquele sujeito?
Identificação, em termos simples, é um processo pelo qual incorporamos características, valores ou posições de outras pessoas e grupos à nossa própria maneira de ser. Não significa simplesmente copiar alguém. Uma figura externa pode passar a representar algo que reconhecemos como nosso.
Por isso, quando alguém diz “eu sou de tal lado”, talvez essa frase contenha mais do que uma preferência eleitoral, pode existir ali uma história pessoal.
O candidato pode representar justiça, ordem, liberdade, tradição, mudança, pertencimento ou uma determinada maneira de imaginar o futuro. Criticá-lo pode tocar justamente naquilo que ele simboliza, e não falo apenas de valores considerados bons pela sociedade. Os aspectos que compõem nossa sombra também podem participar dessa identificação.
A sombra, conceito desenvolvido por Jung¹, corresponde a aspectos de nós mesmos que não reconhecemos ou preferimos manter afastados da consciência. Podem ser desejos, impulsos, lembranças ou características incompatíveis com a imagem que construímos de nós mesmos. Esses conteúdos não desaparecem simplesmente porque foram rejeitados e podem influenciar nossa maneira de perceber os outros.
Pense em alguém que passou anos construindo a própria identidade em torno da ideia de ser uma pessoa esclarecida, letrada, culta e independente. Essa pessoa escolhe determinado candidato porque acredita que ele representa justamente esses valores.
Em algum momento, surge uma informação que contradiz fortemente essa imagem. Em vez de considerar a possibilidade de ter feito uma escolha equivocada, ela procura imediatamente uma explicação que preserve sua decisão, entrando em um processo de negação, não necessariamente porque seja desonesta, talvez porque admitir o erro tenha um custo psíquico maior do que parece.
Se “eu escolhi esse candidato porque ele representa aquilo em que acredito” se transforma em “eu escolhi errado”, a ameaça não está apenas na escolha eleitoral. Ela pode atingir a narrativa que a pessoa construiu sobre si mesma.
É aí que mecanismos de defesa podem entrar em cena. A defesa não precisa ser entendida como uma mentira consciente. Pode ser uma maneira pela qual o aparelho psíquico tenta preservar alguma estabilidade diante de um conflito difícil de suportar.
Outro exemplo aparece nas relações familiares. Uma pessoa pode ter crescido ouvindo que determinados valores eram indispensáveis para ser alguém digno, forte ou respeitável. Anos depois, encontra um candidato cuja imagem parece encarnar esses valores. A identificação pode ser intensa porque aquele político passa a ocupar um lugar que ultrapassa sua atuação pública. Ele se torna uma espécie de representante de uma história pessoal.
Quando alguém ataca essa figura, pode surgir uma sensação semelhante à de uma ameaça ao próprio grupo, à própria família ou àquilo que foi aprendido como correto.
É importante não transformar essa leitura em uma explicação universal, nem toda defesa apaixonada de um candidato tem origem inconsciente. Existem razões concretas para escolhas políticas, como avaliações de políticas públicas, experiências históricas, interesses econômicos e valores éticos. Uma pessoa pode reconhecer os problemas de seu candidato e ainda considerá-lo a melhor alternativa disponível naquele momento.
A questão psicanalítica aparece quando a capacidade de reconhecer a contradição desaparece.
Existe uma diferença entre convicção e identificação rígida. Na convicção, podemos dizer: “Eu continuo acreditando nisso, mesmo reconhecendo os problemas”. Na identificação rígida, pode surgir a dificuldade de separar a própria imagem daquela que atribuímos ao objeto escolhido. É como se abandonar uma posição significasse abandonar uma parte de nós mesmos.
Por isso algumas discussões políticas se tornam tão carregadas de afeto. O debate aparente é sobre propostas, mas, por baixo dele, podem estar em jogo pertencimento, reconhecimento, medo de exclusão, orgulho, ressentimento e necessidade de coerência interna.
Observe a reação emocional diante da contradição, ela não necessariamente prova a existência de um conflito inconsciente, mas pode indicar que existe algo mais envolvido naquela discussão do que o conteúdo objetivo que está sendo debatido.
A política também pode funcionar como espaço de construção de identidade. Duas pessoas podem receber a mesma informação e reagir de maneiras completamente diferentes porque não estão processando apenas um dado. Estão também protegendo ou reorganizando significados que possuem uma história anterior.
Talvez seja justamente aí que a pergunta fique mais interessante. Quando uma pessoa percebe que está excessivamente angustiada diante de uma crítica ao candidato que escolheu, talvez valha perguntar o que exatamente está sendo ameaçado.
- É o candidato?
- É a decisão tomada?
- É o grupo ao qual pertence?
- É a imagem que construiu de si?
- Ou é alguma história mais antiga que encontrou, na política, uma nova forma de se apresentar?

A identificação pode aproximar pessoas, produzir pertencimento e dar sentido à participação social. Mas também pode dificultar a separação entre aquilo que somos e aquilo que escolhemos representar.
Talvez uma das formas mais interessantes de liberdade psíquica seja conseguir dizer: “Eu escolhi isso, mas isso não sou eu por inteiro”.
Porque, quando uma escolha política precisa permanecer correta para que nossa própria identidade permaneça intacta, qualquer crítica pode parecer uma ameaça pessoal.
E talvez seja nesse momento que a pergunta deixe de ser apenas “por que você defende tanto esse candidato?” e se transforme em outra, muito mais íntima:
O que, dentro de você, sente que precisa ser defendido quando alguém questiona a sua escolha?
Com o que você se identifica de verdade? Com os valores que reconhece conscientemente ou também com aquilo que prefere não reconhecer em si mesmo, aquilo que Jung chamou de sombra?
Isso pode ensinar muito sobre você.
Paz e luz.
1 – Carl Gustav Jung (1875–1961): Psiquiatra suíço e fundador da Psicologia Analítica. Desenvolveu conceitos como arquétipos, inconsciente coletivo e sombra, atribuindo importância central aos símbolos e ao processo individual de autoconhecimento.




