A Psicanálise dos Contos de Fadas: A Galinha dos Ovos de OuroAproximadamente 4 min. de leitura

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A história da galinha que põe ovos de ouro é curta, direta e, na superfície, fácil de entender: Um casal ganha sorte diária, mas, tomado pela ambição, destrói a fonte da riqueza ao tentar apressar o ganho. Essa simplicidade é a força do conto, por baixo dela mora uma camada simbólica poderosa que fala de desejo, medo, perda e da relação do humano com seus próprios recursos internos.

Comecemos pelo elemento central, a galinha como símbolo. Na leitura psicanalítica, a galinha representa um aparelho de produção interna, um “instrumento” que gera algo valioso dia após dia. Nessa chave, cada ovo de ouro equivale a uma gratificação regular, que podemos exemplificar por segurança, afeto, talentos, autoestima, oportunidades. Quando o casal decide “abrir” a galinha para pegar tudo de uma vez, não está apenas procedendo de modo irracional, está agindo como alguém que não tolera a frustração da espera e prefere arriscar a perda total em troca de um ganho imediato. Essa dinâmica remete à dificuldade com a função de impulsos e à incapacidade de adiar a gratificação, um tema clássico nas teorias psicanalíticas sobre desenvolvimento do ego e controle dos impulsos.

Outra camada relevante é a relação com o objeto provedor. A galinha funciona como objeto maternal/parental em sentido simbólico, é fonte de sustento. Na clínica, vemos com frequência pacientes que, por medo de perder o apoio, seja ele real ou imaginado, tentam “extrair” demais das relações, exigindo provas imediatas de afeto, controle ou rendimento, e acabam corroendo essas mesmas relações. A fábula nos lembra que a voracidade não apenas empobrece eticamente, ela destrói aquilo do qual dependemos. A mensagem é dupla: Valorização do que já existe e reconhecimento de que a harmonia entre desejo e cuidado preserva a continuidade do bem-estar.

Bruno Bettelheim1 e outros intérpretes dos contos de fadas destacaram que essas histórias trabalham simbolicamente conflitos internos difíceis de nomear em linguagem direta. Para crianças e adultos, o conto ensina sobre limites, não como punição, mas como condição para que algo precioso continue a emergir. Na ótica bettelheimiana, a narrativa ativa imagens mentais que permitem lidar com impulsos destrutivos e com o aprendizado de esperar, sem tornar isso uma lição moralizadora seca. Em termos clínicos, a fábula favorece a elaboração simbólica, permite que a pessoa experimente, por imaginação, as consequências da impaciência sem ter de viver a ruína real.

Vejamos alguns exemplos do dia a dia que aproximam a fábula da vida real: Um profissional que boicota sua carreira buscando um “salto” rápido em vez de construir competência constante, um casal que, movido por insegurança, exige provas tão constantes de afeto que a relação se desgasta, investidores que, fascinados por ganhos instantâneos, destroem um investimento que geraria rendimentos ao longo do tempo. Em todos estes casos, a lógica é a mesma: A preferência por gratificações imediatas e o desprezo pelas condições que produziram a vantagem, e que, sem cuidado, podem desaparecer. Estudos sobre narrativas e moral nas fábulas apontam justamente essa função educativa e simbólica das histórias.

Do ponto de vista terapêutico, a fábula abre caminho para intervenções que não condenam, mas convidam à reflexão, identificar onde a pessoa quer “abrir a galinha”, quais ganhos instantâneos estão em jogo, e quais recursos lentos e seguros ela já possui. Trabalhar a tolerância à frustração, a capacidade de planejar e a gratidão pelo que existe pode ser mais efetivo do que uma crítica moral. Também é útil explorar a origem desses impulsos, frequentemente enraizados em experiências precoces de escassez, insegurança ou modelos parentais instáveis e, a partir daí, reconstruir formas mais sustentáveis de vínculo e autorregulação.

A fábula da galinha dos ovos de ouro é um convite simbólico à prudência, ao reconhecimento das próprias fontes internas e à paciência como forma de cuidar do que nos alimenta. Não se trata de desprezar ambição, mas de administrá-la com respeito às condições que a sustentam. A mensagem psicanalítica é clara e prática: Aprenda a proteger a galinha e os ovos seguirão vindo.

Paz e luz.

 

1 – Bruno Bettelheim foi um psicólogo e educador austríaco radicado nos Estados Unidos, conhecido por seus estudos sobre o papel dos contos de fadas no desenvolvimento emocional das crianças. Em sua obra mais influente, “A Psicanálise dos Contos de Fadas”, defendeu que as narrativas tradicionais ajudam a elaborar conflitos internos e a lidar com angústias de forma simbólica e acessível.

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