Argentina na Final da Copa 2026: Por Que os Países Vizinhos Torcem Contra?Aproximadamente 7 min. de leitura

Argentina - Final da Copa 2026
Argentina - Final da Copa 2026
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Não há nesse texto a intenção de nomear mocinhos ou bandidos, e sim lançar luz sobre o fenômeno psíquico em si, e esclarecido esse ponto temos um fenômeno curioso de observar, para dizer o mínimo, e que se repete a cada grande torneio de futebol. A Argentina, nossa vizinha de continente, alcança a final da Copa do Mundo, e o que vemos em grande parte da América Latina não é a união esperada entre irmãos sul-americanos, mas sim uma torcida fervorosa, e por vezes até raivosa, contra. E o mais intrigante: Essa torcida muitas vezes se volta para uma nação europeia, a antiga metrópole, o colonizador. Como psicanalista, observo essa dinâmica com um olhar que busca ir além da superfície do campo de futebol, mergulhando nas complexas águas do inconsciente coletivo e das feridas históricas que ainda pulsam em nossa identidade.

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À primeira vista, parece uma contradição. Afinal, não seria natural que, diante de um embate global, os laços de vizinhança e de uma história compartilhada de colonização nos levassem a apoiar o “nós” contra “eles”? A resposta, como quase tudo na psicanálise, não é simples. Ela reside em uma teia de sentimentos, identificações e projeções que se manifestam de forma potente no palco do futebol.

Freud¹, o pai da psicanálise, nos legou um conceito que se encaixa como uma luva nessa situação: O narcisismo das pequenas diferenças. Ele observou que, paradoxalmente, são as comunidades mais próximas, com as maiores semelhanças culturais, geográficas e históricas, que desenvolvem as maiores rivalidades e hostilidades. Pense em vizinhos de um mesmo bairro que brigam por uma cerca, ou em irmãos que, apesar do sangue, nutrem ressentimentos profundos por pequenas distinções. A necessidade de afirmar uma identidade própria, de se diferenciar do outro que é tão parecido, leva a uma exacerbação dessas pequenas diferenças, transformando-as em abismos intransponíveis.

No caso da Argentina e seus vizinhos, essa dinâmica é palpável. Compartilhamos a língua (em grande parte), a história de colonização ibérica, a paixão pelo futebol e até mesmo traços culturais. No entanto, a percepção generalizada de uma certa arrogância por parte de uma parcela (e é crucial ressaltar: Uma parcela, não a totalidade) da população argentina atua como um catalisador para esse narcisismo. Essa atitude funciona como um espinho, ferindo o orgulho dos vizinhos e ativando um mecanismo de defesa coletivo.

Contudo, essa percepção de superioridade não reside apenas no campo do imaginário, ela ganha contornos concretos e dolorosos na realidade. A repetição de episódios de racismo e intolerância, como gestos imitando macacos nas arquibancadas, cantos xenófobos direcionados a brasileiros, bolivianos e paraguaios, e declarações de figuras públicas que minimizam a identidade latino-americana, atua como um combustível direto para alimentar e ampliar essa rejeição. Esses atos de violência simbólica ultrapassam a rivalidade esportiva saudável. Eles ferem a dignidade dos povos vizinhos e transformam a antipatia futebolística em uma resposta de autopreservação e repúdio ao preconceito.

Quando a postura de superioridade se traduz em ofensas raciais e culturais, a reação dos vizinhos deixa de ser uma mera “inveja do talento alheio” e passa a ser uma rejeição ativa à intolerância. O afeto negativo ganha um contorno de realidade: O vizinho não é visto apenas como um rival talentoso, mas como alguém que recusa o reconhecimento da humanidade do outro.

Outro conceito que nos ajuda a iluminar essa questão é a identificação projetiva, formulada por Melanie Klein². De forma simplificada, é um mecanismo inconsciente onde projetamos no outro aspectos de nós mesmos que não conseguimos aceitar ou lidar. No contexto da rivalidade, a “arrogância” e o desejo de soberania associados à Argentina podem ser o espelho de um desejo reprimido dos próprios vizinhos de serem os “melhores” ou os “vencedores”. Ao criticar e torcer contra a Argentina, há uma tentativa inconsciente de se livrar desses sentimentos ambivalentes, projetando-os no “outro” e, assim, mantendo uma imagem idealizada de si mesmo.

E de onde viria essa autopercepção de superioridade e as manifestações de preconceito? Aqui, a história nos oferece pistas valiosas. A Argentina, em sua formação nacional no século XIX e início do século XX, buscou uma identificação intencional com a Europa, tentando apagar ou invisibilizar suas raízes indígenas e africanas. O “mito da Argentina branca”, embora amplamente questionado por historiadores modernos, moldou uma identidade nacional que se via como mais “civilizada” e “europeia” dentro do contexto sul-americano. Essa identificação com o colonizador gerou uma espécie de elitismo cultural, uma forma de compensar as próprias inseguranças e a condição de país periférico.

Essa postura cria uma profunda dissonância com os demais países da América Latina, que, em sua maioria, abraçaram a mestiçagem e a diversidade como pilares de sua identidade. O vizinho que se comporta como “mais europeu” acaba sendo percebido como um “falso colonizador”, alguém que renega as origens continentais. Do colonizador europeu original, espera-se o distanciamento histórico e do vizinho continental, espera-se fraternidade. Quando o vizinho reproduz o preconceito e a distância do colonizador, o ressentimento gerado é incomparavelmente maior.

E é aqui que o paradoxo se aprofunda: Por que torcer por um país europeu, o antigo colonizador, em vez de um vizinho sul-americano? A psicanálise nos ensina que o inconsciente não opera com a lógica linear da razão. A torcida pelo país europeu, nesse contexto, pode ser uma forma de identificação com o poder hegemônico e “legítimo”. É como se o inconsciente coletivo dos vizinhos dissesse: “Se é para haver uma demonstração de superioridade, que ela venha de quem historicamente a deteve, e não do vizinho que nega a nossa história comum”.

Além disso, a derrota do rival direto traz uma gratificação imediata, uma catarse que alivia as tensões acumuladas diante das ofensas e provocações sofridas. O futebol funciona, assim, como um grande palco psicanalítico onde encenamos traumas, feridas coloniais e lutas por reconhecimento.

Ao final, a torcida contra a Argentina na Copa do Mundo de 2026 não é apenas sobre futebol. É um sintoma de dinâmicas psíquicas profundas e de feridas históricas que ainda precisam ser elaboradas. Envolve o narcisismo das pequenas diferenças, a repulsa legítima a atos de racismo e intolerância, e a complexa relação do continente com a sua própria herança colonial.

Compreender essas reações não significa justificar o ódio, mas lançar luz sobre as sombras da nossa convivência continental. Talvez, ao olharmos para a nossa reação diante do outro no esporte, estejamos olhando para um espelho que reflete nossas próprias dores, nossas buscas por respeito e a constante luta para definir quem somos no cenário mundial.

Paz e Luz.

 

1 – Sigmund Freud (1856–1939): Médico neurologista austríaco e criador da Psicanálise. Revolucionou a compreensão da mente humana ao investigar o inconsciente, demonstrando que grande parte das nossas ações e sentimentos é movida por desejos e memórias não conscientes. Suas teorias sobre os grupos e a cultura continuam centrais para a compreensão do comportamento coletivo.

2 – Melanie Klein (1882–1960): Psicanalista austríaca radicada na Inglaterra e pioneira na psicanálise de crianças. Klein expandiu as teorias de Freud ao focar nas fantasias inconscientes primitivas, desenvolvendo conceitos fundamentais como as posições esquizo-paranoide e depressiva, além da identificação projetiva.

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