Há um tipo de cansaço que não passa com descanso. Não é físico, não é fruto de uma noite mal dormida ou de um dia cheio. É um cansaço mais fundo, mais denso, como se viver tivesse se tornado um esforço diário, como se o simples fato de existir exigisse mais energia do que se tem. Muitas pessoas vivem esse estado em silêncio, funcionando por fora, mas desmoronando por dentro. A esse esgotamento existencial, muitas vezes damos o nome de depressão, mas nem sempre é fácil reconhecê-la.
Confunde-se facilmente tristeza com depressão. Afinal, quem nunca teve dias difíceis, quem nunca se sentiu desanimado ou chorou sem saber exatamente o motivo? A tristeza é parte da vida, vem e vai. É como uma nuvem que passa e permite que o sol volte a aparecer. Já a depressão não passa com o tempo, e o sol, para quem está nesse lugar, parece não existir mais. Não é apenas estar triste, é não conseguir sentir nada. É olhar ao redor e não encontrar motivo para levantar da cama, para conversar, para se cuidar, é o vazio onde antes havia interesse, alegria, entusiasmo.
Esse estado, no entanto, nem sempre chega com alarde. Muitas vezes, ele se instala de forma silenciosa, quase imperceptível. Pode começar com a perda de prazer nas coisas simples, aquela comida preferida que já não tem gosto, aquele encontro com amigos que antes era tão esperado e agora parece um fardo. Pode aparecer como irritabilidade constante, falta de paciência, insônia ou sono excessivo, ou ainda como dores no corpo, cansaço crônico, perda de memória. Tudo isso pode estar tentando comunicar algo mais profundo, um sofrimento psíquico que foi sendo acumulado e que, agora, pede atenção.
Mas por que é tão difícil falar sobre isso?
Parte da dificuldade está no medo do julgamento. Vivemos em uma cultura que valoriza a performance, o bom humor constante, a produtividade. Mostrar fragilidade parece ser um fracasso. Por isso, muitos fingem. Sorriso no rosto, mas alma esgotada. Vão levando, vão empurrando os dias, enquanto por dentro tudo parece desabar. E nesse esforço de manter as aparências, a dor só aumenta.
A depressão pode ter muitas causas. Às vezes, ela nasce de uma perda, podendo ser de alguém, de um sonho, de um sentido. Outras vezes, está relacionada a histórias de vida marcadas por negligência, rejeição, ou cobranças excessivas. E há casos em que a origem parece não ser tão clara, mas o sofrimento é real, legítimo, e precisa ser acolhido. Seja qual for o caminho que levou até esse lugar, o que importa é que há saída. E essa saída passa, muitas vezes, pela escuta.
A terapia oferece esse espaço de escuta. Não é um lugar de conselhos prontos, nem de receitas mágicas. É um lugar de encontro com o terapeuta, mas principalmente consigo mesmo. Um espaço seguro, onde se pode dizer aquilo que dói, sem medo de ser julgado. Onde o silêncio é respeitado e as palavras, quando chegam, são ouvidas com cuidado.
No processo terapêutico, muitas vezes, a pessoa começa a perceber padrões antigos, repetições de sofrimento, exigências que impôs a si mesma, feridas que ficaram abertas por muito tempo. E, aos poucos, vai se autorizando a ser mais gentil consigo, a reconstruir sua história sob outra luz. A dor não desaparece como num passe de mágica, mas vai se transformando, vai ganhando sentido e quando a dor encontra sentido, ela já não pesa do mesmo jeito.
Há uma imagem que gosto de usar, a da raiz. A depressão, às vezes, é como uma árvore que parou de florescer, por fora, tudo parece seco, sem vida, mas é mexendo na raiz que algo pode mudar, e isso dá trabalho, exige coragem, exige paciência. Entretanto é possível, muitas vezes, é justamente esse mergulho que permite que a vida volte a brotar.
Se você sente esse cansaço de ser quem é, se percebe que as coisas perderam o sabor e que tudo parece um esforço imenso, talvez seja hora de parar e olhar com mais carinho para si. Ninguém precisa enfrentar isso sozinho. O sofrimento não é fraqueza, é um pedido de ajuda e reconhecer esse pedido é o primeiro passo para sair do silêncio.
A depressão não define quem você é. Ela pode fazer parte da sua história, mas não precisa ser o fim dela. Com acolhimento, escuta e tempo, é possível escrever novos capítulos e, com sorte e cuidado, reencontrar o prazer de simplesmente estar vivo.
Paz e Luz.