Basta o calendário marcar 31 de dezembro para que milhões de pessoas corram às lojas em busca de uma peça de roupa branca. Horas depois, à beira-mar, cumprirão sem hesitar uma sequência de gestos: Pularão sete ondas, farão pedidos em silêncio e, talvez, joguem flores na água. Meses mais tarde, no dia do aniversário, a mesma pessoa fechará os olhos diante de um bolo aceso, fará um desejo íntimo e assoprará as velas para que a fumaça suba. Se algo der errado no meio do caminho, baterá três vezes com os nós dos dedos na madeira mais próxima.
Praticamos esses atos com a naturalidade de quem cumpre um protocolo social inofensivo. Para a mente consciente, vestir branco no Réveillon ou soprar uma vela são apenas costumes divertidos, hábitos de família ou simpatias de início de ano. No entanto, quando observamos esses comportamentos sob a lente da história e da psicanálise, percebemos que não existe gesto neutro. Por trás do automatismo moderno, reside um tecido denso de memórias sagradas, mitos antigos e, acima de tudo, uma tentativa incessante da psique de lidar com o desamparo.
A pergunta que se impõe não é apenas de onde vêm esses costumes, mas por que continuamos a repetindo-os com tanta fidelidade, mesmo depois de esquecermos completamente o seu significado original?
A cultura ocidental gosta de se pensar como extremamente racional, pragmática e secularizada. Acreditamos que abandonamos os mitos no passado para abraçar a lógica. Mas a verdade é que o sagrado não desapareceu da nossa rotina, ele apenas se vestiu de hábito.
Tomemos como exemplo o gesto singelo de soprar as velas no bolo. A cena é familiar em qualquer festa infantil ou adulta, mas sua estrutura nasceu na Grécia Antiga. Os fiéis levavam ao templo de Éfeso1 bolos redondos de mel e pão para homenagear Ártemis, a deusa da caça e da lua. As velas eram acesas em cima do pão para simular o brilho do luar sobre a terra. A crença da época ditava que a fumaça subindo ao céu carregava os pensamentos, preces e desejos mais profundos dos devotos diretamente até o Olimpo.
Hoje, ninguém que assopra uma vela de aniversário está pensando em Ártemis ou no panteão grego. No entanto, a estrutura do rito permanece intacta: O fogo, a luz, o pedido secreto, o sopro e a fumaça que eleva a intenção.
O mesmo movimento de assimilação e esquecimento ocorre com o presente de ovos na Páscoa e a decoração de pinheiros no fim do ano. Muito antes do cristianismo ressignificar o ovo como a saída de Cristo do sepulcro ou o pinheiro como símbolo da luz divina, povos celtas, persas e germânicos já cultuavam esses elementos. O ovo era a representação física da vida oculta prestes a brotar durante o equinócio de primavera, já o pinheiro, por ser uma das raras árvores que não morre no inverno rigoroso da Europa, simbolizava a resistência da natureza perante a escuridão.
A cultura absorve o mito, a religião institucionaliza a prática e, séculos depois, o mercado a transforma em consumo. Mas o núcleo psíquico do gesto permanece intocado.
No Brasil, essa permanência do sagrado invisível ganha contornos ainda mais ricos devido ao sincretismo cultural e à presença marcante das religiões de matriz africana.
Vestir-se de branco na virada do ano não é uma escolha estética inventada por marcas de moda. O branco é a cor sagrada de Oxalá, o orixá que rege a criação, a paz e o equilíbrio no Candomblé e na Umbanda. O ato de ir à praia no dia 31 de dezembro consolidou-se em meados do século XX, quando terreiros cariocas levavam suas oferendas a Iemanjá, a senhora das águas e da cabeça (Ori). Pular sete ondas é uma saudação ritual que faz referência direta às sete linhas da Umbanda e à força purificadora do mar.
Da mesma forma, amarrar a fita do Senhor do Bonfim no pulso com três nós e três pedidos silenciosos resgata uma tradição que remonta ao século XIX em Salvador. A fita, que originalmente tinha a medida exata do braço da imagem de Cristo venerada na Igreja do Bonfim, tornou-se um amuleto de proteção ao se entrelaçar com o culto a Oxalá.
Quando uma pessoa veste branco, pula as ondas e coloca a fita no braço, ela pode até declarar que “não acredita em nada disso”. Contudo, o seu corpo está executando uma liturgia. O inconsciente não exige uma adesão teológica formal para operar através do símbolo, basta que a forma esteja disponível na cultura.
Mas por que a nossa mente precisa tanto desses pequenos teatros cotidianos?
A resposta reside no desamparo estrutural do ser humano. A vida é por definição incerta, fluida e, em grande medida, incontrolável. Não sabemos o que o próximo ano trará, não temos garantias sobre a saúde de quem amamos e não conseguimos conter a passagem do tempo que envelhece o nosso corpo. Diante dessa angústia existencial, a que Freud2 chamava de percepção da nossa própria fragilidade perante a natureza, o corpo e as relações, a psique busca recursos para criar ordem onde há caos.
O ritual é a tecnologia psíquica mais antiga criada pela humanidade para dar contorno ao invisível.
O ritual funciona como uma moldura. Ele delimita um espaço e um tempo específicos, criando a ilusão necessária de que estamos no comando da realidade, ao menos por alguns instantes.
Quando você bate na madeira três vezes ao ouvir uma notícia ruim, seu cérebro racional sabe que a densidade da matéria não tem o poder de alterar um evento futuro. Contudo, o gesto, que remonta aos druidas celtas que pediam proteção aos espíritos do carvalho e aos cristãos medievais que invocavam o madeira da Santa Cruz, cumpre uma função imediata: Descarrega a angústia da impotência. É uma tentativa de calar a inveja, o azar ou a tragédia iminente por meio de uma ação física.
Da mesma forma o hábito de responder “Saúde!” quando alguém espirra, era um decreto do Papa Gregório I no século VI para abençoar as vítimas da peste bubônica, funciona como freio simbólico.
São gestos que organizam o pacto social e oferecem ao indivíduo a sensação acolhedora de pertencimento a algo maior.
Em psicanálise, compreendemos que o inconsciente é atemporal e altamente simbólico. Ele não se comunica por meio de planilhas de desempenho ou argumentos puramente lógicos, mas sim por imagens, afetos, metáforas e repetições.
Para a mente profunda, a divisão entre o “sagrado” e o “profano” é muito mais tênue do que gostaríamos de admitir. Quando privamos a vida moderna de seus rituais fundamentais, a angústia não desaparece, ela apenas se desloca. Uma sociedade que tenta erradicar o mito costuma criar novos rituais substitutos, por vezes muito mais rígidos e adoecedores, como a compulsão pela produtividade, a checagem diária de métricas ou a busca obsessiva pela imagem perfeita nas redes sociais.
Os rituais automáticos que herdamos das religiões antigas sobreviveram porque cumprem um papel humanizador. Eles nos lembram de que a vida precisa de pausas, de transições e de marcas. Ao soprar a vela, ao vestir o branco ou ao dividir o pão e o peixe, fazemos uma pausa na correria pragmática do dia a dia para dizer à nossa própria mente: Este momento importa!
A próxima vez que você se pegar cumprindo um desses hábitos sem pensar, não o descarte como uma simples superstição tola. Olhe para esse gesto com a curiosidade de quem reconhece um rastro ancestral. Nele, o seu inconsciente está apenas fazendo o que os seres humanos fazem desde que se reuniram ao redor do primeiro fogo: Buscando sentido, pedindo proteção e tentando navegar a incerteza da vida com um pouco mais de poética e esperança.
Paz e luz.
1 – Éfeso: Antiga cidade grega situada na costa da Ásia Menor (onde hoje se localiza a Turquia). Abrigava o grandioso Artemisão, o Templo de Ártemis, considerado uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo e o principal centro de culto e peregrinação à deusa na Antiguidade.
2 – Sigmund Freud (1856–1939): Médico neurologista austríaco e criador da psicanálise. Revolucionou a compreensão da mente humana ao estruturar o conceito de inconsciente e investigar como desejos, angústias reprimidas e defesas psíquicas moldam nossos comportamentos, escolhas e produções culturais.




