Quando os filhos crescem, quem perde o lugar? A ambivalência psíquica diante da autonomia dos filhos.Aproximadamente 6 min. de leitura

Quando os filhos crescem
Leia o artigo

Há pais que esperam ansiosamente o dia em que o filho poderá se virar sozinho. Ensinam a atravessar a rua, preparar uma refeição, resolver um problema, organizar a própria vida. Falam da importância da independência e repetem, com sinceridade, que desejam ver os filhos felizes e livres.

Atendimento em Psicanálise (Online)

Mas, quando a autonomia finalmente chega, algo nem sempre se acomoda com a mesma facilidade. O filho começa a tomar decisões sem consultar a família, muda-se de casa, escolhe uma profissão diferente da imaginada, administra o próprio dinheiro ou simplesmente passa a telefonar menos. O orgulho aparece, mas pode vir acompanhado de irritação, tristeza, sensação de vazio ou até uma impressão desconfortável de inutilidade.

Como é possível desejar a autonomia de alguém e, ao mesmo tempo, sofrer quando ela se realiza?

A ambivalência não significa necessariamente falta de amor. Ela designa a convivência de sentimentos distintos, às vezes contraditórios, em relação à mesma pessoa ou situação. No vínculo entre pais e filhos, é possível sentir orgulho e medo, alegria e saudade, alívio e perda. Pesquisas sobre relações entre gerações reconhecem justamente essa combinação de aspectos positivos e negativos, especialmente nos períodos em que a proximidade precisa ser reorganizada pela busca de independência.

Do ponto de vista psicanalítico, a questão não se reduz ao comportamento visível dos pais. É preciso perguntar o que a autonomia do filho representa para o lugar psíquico ocupado por aquele pai ou aquela mãe. Durante muitos anos, cuidar pode ter sido uma das principais formas de existência: Acompanhar tarefas, resolver urgências, antecipar perigos, orientar escolhas. Quando o filho já não solicita essa presença com a mesma frequência, não muda apenas a rotina. Pode mudar também a imagem que o adulto construiu de si mesmo.

Nesse momento, o sofrimento pode estar ligado não somente à distância real, mas ao luto por uma posição familiar. A infância do filho não desaparece como se nunca tivesse existido, mas a relação com ela deixa de ser atual. Algo precisa ser perdido para que outra forma de vínculo possa existir. O problema é que nem todo luto se apresenta como tristeza evidente. Às vezes, aparece como crítica constante, excesso de conselhos, cobranças ou uma preocupação que parece não encontrar repouso.

Cuidar e controlar podem se parecer por fora, mas obedecem a lógicas diferentes. O cuidado reconhece a existência do outro e considera suas necessidades concretas. O controle, muitas vezes, precisa que o outro permaneça dependente para preservar uma sensação de segurança, importância ou autoridade.

Isso não significa acusar os pais de manipuladores. Em muitos casos, a tentativa de controlar nasce do medo. Um pai pode insistir em revisar as decisões profissionais do filho porque teme que ele fracasse. Uma mãe pode telefonar várias vezes ao dia porque imagina que, se não acompanhar tudo, alguma tragédia acontecerá. A preocupação é real, o que merece investigação é a função que ela passa a cumprir na relação.

Pensemos em uma situação cotidiana: A filha adulta comunica que pretende morar sozinha.

A mãe diz que apoia a decisão, mas começa a listar todos os riscos: O bairro, as despesas, o tamanho do local, a possibilidade de doença, a falta de segurança.

Cada argumento parece razoável isoladamente, no conjunto, porém, pode produzir uma mensagem diferente: “Você ainda não está pronta, precisa continuar sob minha supervisão”.

Talvez a filha não esteja apenas enfrentando uma mudança de endereço. Talvez esteja tentando abrir espaço para uma identidade que não seja definida pela autorização materna.

Em outro caso, o filho consegue um emprego e passa a organizar a própria vida financeira. O pai, que durante anos foi chamado para resolver qualquer dificuldade, oferece ajuda mesmo quando ela não foi solicitada. Quando o filho recusa, o pai interpreta a recusa como ingratidão. A ajuda, então, deixa de ser apenas um gesto de cuidado e passa a carregar uma expectativa de reconhecimento: “Se você não precisa de mim, talvez eu não tenha mais valor”.

Pais e filhos constroem identificações profundas. Um filho pode representar continuidade, esperança, reparação de antigas frustrações ou a confirmação de que determinada história familiar teve algum sentido. Nada disso é necessariamente consciente. Por isso, a escolha autônoma do filho pode ser vivida, sem que se perceba, como afastamento, rejeição ou até desmentido daquilo que os pais imaginaram para ele.

A separação, contudo, não precisa ser compreendida como abandono. Estudos sobre individuação1 e desenvolvimento da identidade mostram que autonomia e vínculo não são opostos absolutos. A tarefa é construir uma relação em que exista separação suficiente para a escolha, mas ligação suficiente para o pertencimento. O filho não deixa de ser filho porque passa a decidir por si. O pai não deixa de ser pai porque já não ocupa o centro de todas as decisões.

Há também uma nuance importante. Nem todo vazio diante da saída dos filhos decorre de uma dependência psíquica dos pais. Mudanças familiares podem coincidir com aposentadoria, solidão conjugal, dificuldades financeiras, adoecimento ou perdas anteriores. Às vezes, o filho era de fato a principal fonte de convivência cotidiana, e a casa silenciosa produz um impacto concreto. A psicanálise pode ampliar a pergunta, mas não deve transformar toda tristeza em diagnóstico nem ignorar as condições reais da vida.

O cuidado merece atenção quando o sofrimento se torna persistente, intenso ou acompanhado de ansiedade incapacitante, isolamento, conflitos repetidos e perda significativa de interesse pela própria vida. Nesses casos, buscar acompanhamento psicanalítico pode ser uma forma responsável de compreender o que está acontecendo, sem reduzir a experiência a culpa ou fraqueza.

Talvez a passagem mais difícil da parentalidade seja perceber que o amor não garante um lugar fixo. Os filhos crescem, e o vínculo precisa encontrar uma nova forma depois que a dependência deixa de organizá-lo. Algumas pessoas conseguem fazer essa passagem com relativa tranquilidade, outras precisam reconhecer, pouco a pouco, que eram necessárias em uma etapa, mas não precisam continuar sendo indispensáveis em todas as outras.

Quando o filho cresce, talvez a pergunta não seja apenas quem perde o lugar, mas que lugar pode nascer quando o controle já não consegue ocupar o espaço do cuidado.

Paz e luz.

 

1 – Individuação é o processo psíquico pelo qual uma pessoa desenvolve uma identidade própria, diferenciando-se gradualmente das figuras parentais sem precisar romper o vínculo com elas. No caso dos filhos, envolve conquistar autonomia para pensar, escolher e conduzir a própria vida, preservando a possibilidade de pertencimento e afeto na relação familiar.

Autor

Você pode gostar...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Traduzir »
Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support