Sentimento de solidão: Como a psicanálise pode te ajudar?Aproximadamente 3 min. de leitura

Leia o artigo

Você já sentiu aquele vazio estranho no peito enquanto estava em uma festa barulhenta ou em um jantar de família? É uma sensação curiosa e, por vezes, angustiante, o corpo está ali, cercado de vozes e rostos conhecidos, mas a mente parece estar em um deserto. É o que chamamos de “solidão acompanhada”.

Diferente do estar sozinho, que pode ser um momento de descanso ou reflexão, a solidão como sofrimento é uma desconexão. É como se existisse um vidro invisível entre você e o resto do mundo. Você fala, as pessoas respondem, mas nada parece realmente “tocar” o seu íntimo.

Para a psicanálise, essa sensação não é um defeito de fabricação, nem significa que as pessoas ao seu redor sejam ruins. Na verdade, a solidão profunda costuma falar muito mais sobre a nossa relação com nós mesmos do que sobre a nossa agenda social.

Muitas vezes, buscamos no outro uma peça que falta em nosso próprio quebra-cabeça. Quando essa peça não vem, porque ninguém consegue preencher totalmente o vazio de outra pessoa, surge a frustração e o sentimento de abandono. É o clássico exemplo de quem termina um relacionamento e pula imediatamente para outro, ou de quem não consegue suportar dez minutos de silêncio sem ligar a televisão ou checar as redes sociais. O barulho externo serve para abafar um silêncio interno que assusta.

Nossa dificuldade em criar vínculos reais e profundos geralmente tem raízes em histórias que começamos a escrever lá atrás, na infância. Se, em algum momento, aprendemos que mostrar vulnerabilidade era perigoso ou que nossas necessidades emocionais não seriam atendidas, criamos “armaduras”.

No dia a dia, essa armadura aparece de várias formas:

  • Aquela pessoa que é “legal com todo mundo”, mas nunca aprofunda uma conversa sobre o que sente.
  • O profissional bem-sucedido que evita intimidade para não perder o controle.
  • O parceiro que, diante de um conflito emocional, se retrai e se cala.

Esses mecanismos de defesa nos protegem da dor, é verdade, mas também nos impedem de sentir o calor do afeto verdadeiro. Acabamos ficando protegidos, mas profundamente sozinhos.

A análise não é um lugar onde você vai para receber dicas de como fazer amigos ou ser mais extrovertido. O trabalho é mais sutil e, por isso, mais transformador. O consultório se torna um laboratório onde você pode, finalmente, baixar a guarda.

Ao falar sobre o que dói, sobre os medos e até sobre as “vergonhas” que guardamos, começamos a entender o porquê de mantermos as pessoas à distância. A psicanálise ajuda a identificar esses padrões repetitivos. Você percebe, por exemplo, que escolhe sempre o mesmo tipo de relação distante ou que sabota conversas importantes por medo de ser rejeitado.

Quando você compreende suas necessidades emocionais profundas, a relação com o mundo muda. Você para de exigir que o outro adivinhe o que você sente e passa a se comunicar com mais verdade. O “vidro” que mencionamos no início começa a se tornar mais fino, até que você consiga atravessá-lo.

Superar a solidão não é sobre encher a casa de gente, mas sobre conseguir habitar a própria pele com mais conforto. Quando aprendemos a lidar com nossos próprios fantasmas e a aceitar nossas faltas, o encontro com o outro deixa de ser uma “necessidade de sobrevivência” e passa a ser uma escolha genuína de compartilhamento.

Se você sente que, por mais que tente, as conexões parecem superficiais ou passageiras, talvez seja o momento de olhar para dentro. A jornada de análise permite que você se torne sua melhor companhia e, a partir desse lugar de segurança interna, consiga construir pontes reais em vez de muros.

Paz e luz.

Autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *