A Fervura Lenta da Democracia: O Mecanismo Psicológico do Fascismo.Aproximadamente 9 min. de leitura
Imagine alguém colocando uma panela com água fria sobre o fogo. No começo, nada parece preocupante, a água permanece tranquila. Depois surgem pequenas bolhas, o calor aumenta, mas ainda é possível permanecer ali sem grande incômodo. Quando a temperatura chega ao ponto de ebulição, porém, já não estamos diante da mesma situação.
A conhecida metáfora do sapo na panela não descreve exatamente um fenômeno biológico, mas funciona como uma imagem poderosa para pensar a política. Democracias raramente desaparecem diante de uma única cena suficientemente absurda para despertar toda a sociedade. Com frequência, a ruptura acontece por etapas, enquanto cada etapa é explicada como excepcional, necessária ou temporária.
A pergunta que interessa à psicanálise é incômoda: O que acontece dentro das pessoas quando aquilo que ontem parecia inadmissível começa a ser tolerado?
Na teoria psicanalítica, os mecanismos de defesa podem ser compreendidos como formas pelas quais o psiquismo procura reduzir a ansiedade diante de algo difícil de suportar. A negação pode afastar da consciência uma realidade desagradável. A racionalização, por sua vez, pode produzir explicações aparentemente lógicas para justificar algo que, em outro nível, provoca desconforto ou conflito.
Isso não significa que uma sociedade inteira possa ser diagnosticada como se fosse um indivíduo, a aproximação é outra. Certos mecanismos psicológicos presentes nas pessoas podem participar da maneira como acontecimentos políticos são percebidos e assimilados.
Uma pessoa pode pensar: “É apenas uma medida contra aqueles que estão exagerando”. Depois: “É uma exceção necessária”. Mais adiante: “Quem não fez nada de errado não precisa ter medo”.
Cada frase reduz um pouco a tensão provocada pela realidade, mas o problema é que a capacidade de justificar o primeiro abuso pode preparar o terreno psíquico para aceitar o segundo.
Na Itália, a Marcha sobre Roma, em outubro de 1922, foi um momento decisivo. Milhares de fascistas marcharam sobre a capital, enquanto o rei Victor Emmanuel III recusava a decretação da lei marcial e convidava Benito Mussolini a formar um governo. Mussolini chegou ao cargo de primeiro ministro ainda dentro de uma estrutura parlamentar, a transformação não terminou ali.
Em 1923, a Lei Acerbo criou condições para que o partido mais votado recebesse dois terços das cadeiras parlamentares. Nas eleições de 1924, os fascistas obtiveram ampla vantagem. Em 1925 e 1926 vieram as chamadas Leis Fascistíssimas, que reduziram drasticamente a autonomia do Parlamento, restringiram a imprensa, dissolveram partidos de oposição e consolidaram o poder pessoal de Mussolini.
Perceba a sequência. Não foi necessário abolir tudo no primeiro dia. Uma instituição foi enfraquecida, uma regra foi alterada, uma oposição foi intimidada, uma violência foi tolerada. O sistema continuava apresentando aparência de legalidade enquanto sua estrutura interna era progressivamente esvaziada.
Essa sequência deveria nos fazer pensar menos em um momento específico e mais no processo.
O processo nazista apresenta uma dimensão ainda mais brutal.
Em 1º de abril de 1933, poucos meses depois de Hitler assumir o poder, ocorreu o boicote nacional contra estabelecimentos e profissionais judeus. A ação durou apenas um dia, mas marcou o início de uma campanha nacional para excluir os judeus da vida econômica e social alemã.
A partir daí, a exclusão ganhou forma jurídica. Em 1933 e 1934, leis e regulamentos limitaram progressivamente a participação dos judeus na vida profissional e pública. Em setembro de 1935, as Leis de Nuremberg retiraram dos judeus a cidadania do Reich e proibiram casamentos e relações sexuais entre judeus e pessoas consideradas de sangue alemão. Nos anos seguintes, centenas de decretos e regulamentos ampliaram a perseguição e retiraram direitos e propriedades.
Aqui aparece algo especialmente perturbador. A violência não dependia apenas de soldados nas ruas, dependia também de documentos, carimbos, regulamentos, funcionários, empresários, vizinhos e pessoas que continuavam trabalhando enquanto a vida de outros era progressivamente desorganizada.
A anestesia começa quando a pergunta deixa de ser “isso pode acontecer?” e passa a ser “isso realmente me afeta?”.
É possível perceber uma versão muito menor desse mecanismo em situações comuns.
Imagine um ambiente de trabalho no qual uma pessoa é publicamente humilhada. No primeiro episódio, todos ficam constrangidos, depois alguém comenta que ela também “provocou”. Em outra ocasião, outra pessoa é tratada da mesma maneira, aos poucos, aquilo que causava indignação passa a ser entendido como “o jeito do chefe”.
Algo semelhante pode acontecer em uma família. Uma opinião é ridicularizada durante um jantar, depois alguém aprende que determinados assuntos devem ser evitados para não gerar conflito, mais tarde, uma pessoa deixa de participar das conversas. A família continua reunida, mas a liberdade de falar diminuiu sem que ninguém tenha anunciado essa perda.
Esses exemplos não são equivalentes ao fascismo, são apenas situações menores que ajudam a compreender uma lógica psíquica da adaptação, onde aquilo que se repete pode deixar de provocar a mesma reação emocional.
É nesse ponto que o debate contemporâneo exige cuidado, não é intelectualmente sério afirmar que toda proposta conservadora, toda crítica ao Judiciário ou toda reforma constitucional seja fascista. Democracias permitem disputas intensas sobre instituições, segurança pública, direitos e organização do Estado.
O problema começa quando a crítica às instituições deixa de buscar seu aperfeiçoamento e passa a tratá-las como obstáculos que precisam perder autonomia para que determinado projeto político possa governar sem resistência.
Esse ponto merece atenção nas posições públicas recentes de Flávio Bolsonaro. Em pronunciamento no Senado, em setembro de 2026, ele afirmou que a democracia brasileira estava “podre” e pediu o início imediato de um processo de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes. No mesmo discurso, descreveu o ambiente político como marcado por uma espécie de ameaça e afirmou que investigações estariam sendo usadas para pressionar parlamentares.
Seu plano de governo também propõe limitar decisões individuais do Supremo Tribunal Federal, restringir o conjunto de pessoas e entidades autorizadas a apresentar determinadas ações perante a Corte e retirar do STF a competência criminal originária para julgar parlamentares. Essas propostas podem ser defendidas como reformas institucionais e não constituem, por si mesmas, medidas fascistas. A questão relevante é outra: O que acontece com os freios ao poder quando várias mudanças dessa natureza são consideradas em conjunto?
Há ainda um aspecto ligado à memória política. Flávio Bolsonaro já defendeu publicamente uma interpretação favorável ao regime militar de 1964 e elogiou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido como torturador pela Justiça brasileira. Também questionou a caracterização de 1964 como golpe. Quando agentes da repressão são apresentados sob uma perspectiva heroica e a ruptura institucional é relativizada, a violência de Estado pode deixar de ser lembrada como advertência e passar a ser apresentada como instrumento legítimo de defesa da ordem.
Outro episódio que merece atenção é sua posição sobre o massacre do Carandiru. Segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, Flávio defende a atuação dos policiais envolvidos na operação e a interpreta como legítima defesa. O debate sobre as circunstâncias daquele episódio é legítimo, mas existe uma questão mais profunda: Quando a condição moral da vítima passa a ser utilizada para determinar quanto valor devemos atribuir à violência praticada pelo Estado, estabelece se uma hierarquia perigosa sobre quem merece proteção.
Por fim, Flávio Bolsonaro anunciou que concederia indulto ao pai, Jair Bolsonaro, caso chegasse à Presidência. O indulto é uma prerrogativa prevista constitucionalmente, o problema não está simplesmente na existência desse instrumento, mas na possibilidade de utilizá-lo em benefício de um familiar condenado por crimes relacionados à tentativa de golpe. Nesse contexto, uma prerrogativa legal passa a levantar uma questão política e ética: Até que ponto o poder pode ser utilizado para proteger o próprio grupo sem comprometer a ideia de igualdade perante a lei?
Nenhum desses fatos, analisado isoladamente, demonstra a implantação de um regime fascista, a preocupação está na convergência. A reabilitação de agentes da repressão, a relativização de rupturas democráticas, a defesa de alterações que reduzem mecanismos de controle institucional e a disposição de utilizar prerrogativas do Estado em favor do próprio grupo político podem apresentar afinidades com padrões observados em experiências autoritárias.
Isso não torna o Brasil atual equivalente à Itália de Mussolini ou à Alemanha nazista. As circunstâncias históricas são diferentes, as instituições brasileiras continuam funcionando e a comparação direta seria simplificadora, o que merece atenção é a lógica.
Foi assim que experiências autoritárias históricas puderam avançar: Não necessariamente porque todos concordaram desde o início com aquilo que viria depois, mas porque cada etapa encontrou uma justificativa suficientemente aceitável para aquele momento.
É justamente aí que a metáfora da fervura se torna útil.

A democracia não depende apenas de eleições. Depende também da possibilidade de perder uma eleição, da existência de oposição, da autonomia institucional, da imprensa livre, da proteção das minorias e da aceitação de limites ao poder de quem venceu.
O perigo psicológico está em imaginar que cada concessão é pequena demais para importar.
Talvez seja assim que a água esquenta, não porque ninguém perceba absolutamente nada, mas porque, a cada aumento de temperatura, encontramos uma explicação que nos permite permanecer dentro da panela, igualzinho ao sapo.
E quando finalmente percebemos que a temperatura mudou, talvez a pergunta mais importante já não seja quem acendeu o fogo, mas em que momento começamos a considerar normal permanecer ali.
Em uma democracia, quais pequenas perdas de liberdade estamos aprendendo a explicar como se fossem apenas o preço inevitável da política?
Essa pergunta pode ser incômoda. Talvez justamente por isso seja importante fazê-la enquanto ainda existe liberdade suficiente para perguntar.
Paz e luz.



