O Poder dos Símbolos: De Jogos Vorazes ao “L” das Eleições BrasileirasAproximadamente 8 min. de leitura

O Poder dos Símbolos - De Jogos Vorazes ao L das Eleições Brasileiras
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Uma mão erguida pode dizer muito sem pronunciar uma palavra. Em uma arena fictícia, três dedos levantados podem representar respeito por alguém que morreu e, mais tarde, se transformar em sinal de resistência. Em uma campanha eleitoral brasileira, os dedos formando a letra “L” podem expressar apoio político, reconhecimento e pertencimento. Os gestos são diferentes, assim como suas histórias, mas ambos ajudam a compreender uma característica importante da experiência humana, onde atribuímos significados às coisas e, por meio deles, estabelecemos vínculos com outras pessoas.

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Em Jogos Vorazes1, a saudação de três dedos acompanha a trajetória de Katniss Everdeen e ganha força à medida que deixa de ser apenas uma manifestação individual. Na política brasileira, o “L”, associado a Luiz Inácio Lula da Silva, tornou se uma marca visual de identificação com o político e seu campo de apoio. A circulação internacional desse gesto, noticiada após a eleição brasileira de outubro de 2026, também mostra como símbolos podem ultrapassar as fronteiras em que surgiram e adquirir novas funções.

O que permite que um movimento tão simples carregue tantos significados? Para compreender esse fenômeno, é necessário olhar além da forma dos dedos e investigar a relação entre símbolos, emoções e vida coletiva.

Em Jogos Vorazes, Katniss se oferece para ocupar o lugar da irmã mais nova nos jogos mortais organizados pela Capital. A atitude provoca uma resposta silenciosa dos habitantes do Distrito 12: Eles erguem três dedos em sua direção. O gesto expressa respeito, reconhecimento e uma despedida que não precisa ser explicada.

Mais tarde, quando Katniss homenageia Rue, a jovem que morre durante os jogos, a saudação ultrapassa a esfera pessoal. Sua repetição por habitantes de outro distrito transforma aquele sinal em uma manifestação de solidariedade e indignação. O que inicialmente expressava respeito por uma pessoa passa a comunicar também uma percepção compartilhada sobre a violência e a injustiça.

O significado do gesto não mudou por causa de sua forma física. Mudou porque outras pessoas passaram a reconhecê-lo, reproduzi-lo e relacioná-lo a uma experiência coletiva.

Algo semelhante acontece com o “L” associado a Lula. A letra funciona como uma referência visual a uma liderança política, mas seu uso também pode expressar identificação com um projeto, uma trajetória ou um grupo, nesse caso a estrema direita e o fascismo. Para quem o reproduz, o gesto pode condensar convicções que seriam muito mais difíceis de explicar em uma única frase.

Isso não significa que os dois símbolos sejam equivalentes. A saudação de Katniss nasce em uma narrativa ficcional de opressão e resistência, enquanto o “L” está ligado a uma figura política real e às disputas democráticas. A aproximação entre eles está no modo como um gesto pode adquirir significado coletivo, e não na identidade de suas causas ou intenções.

A psicanálise oferece uma perspectiva interessante para compreender por que esses gestos podem adquirir tamanha importância. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, publicado em 1921, Freud2 investigou os vínculos emocionais que aproximam os indivíduos de um grupo e de suas lideranças. Uma de suas contribuições foi mostrar que a vida psíquica não se desenvolve isoladamente, nossas identificações e relações com outras pessoas participam da maneira como construímos nossa própria identidade.

A identificação ocorre quando reconhecemos algo de nós mesmos em outra pessoa, em um ideal ou em um grupo. Isso não significa que passamos a pensar exatamente da mesma maneira, mas que encontramos um elemento com o qual estabelecemos uma ligação significativa.

Um exemplo cotidiano ajuda a compreender esse processo. Imagine alguém que participa pela primeira vez de uma manifestação e percebe centenas de pessoas levantando as mãos com o mesmo gesto. A repetição pode produzir uma sensação de proximidade, como se aquelas pessoas desconhecidas compartilhassem alguma coisa importante. O gesto torna visível uma ligação que, até então, existia principalmente nas convicções individuais.

Essa experiência não é necessariamente política. Torcidas esportivas, cerimônias religiosas e movimentos culturais também utilizam sinais reconhecíveis para expressar pertencimento. O símbolo ajuda a estabelecer uma linguagem comum, mas não revela, por si só, tudo aquilo que cada pessoa sente ou pensa.

A circulação internacional do “L” associado a Lula oferece um exemplo contemporâneo dessa capacidade de adaptação. Após a eleição brasileira de outubro de 2026, políticos e ativistas de outros países passaram a utilizar o gesto em contextos próprios. Na Espanha, Ada Colau3 o reproduziu em um ato político. No México, Claudia Sheinbaum4 fez o sinal ao cumprimentar Lula pela vitória. Na França, apoiadores de Jean Luc Mélenchon5 adaptaram a ideia para formar a letra “M”.

Esses episódios mostram que um símbolo pode ser transportado para outro ambiente e receber novos sentidos. Sua adoção, contudo, não significa que as circunstâncias políticas sejam iguais ou que todos os participantes compartilhem as mesmas motivações. O gesto pode servir como referência a uma liderança, expressão de solidariedade ou recurso de comunicação política.

Também é importante distinguir identificação de pensamento crítico. Sentir se representado por um símbolo não obriga ninguém a concordar com todas as decisões da pessoa ou do grupo que ele representa. Da mesma forma, utilizar um gesto não comprova que alguém tenha sido manipulado ou que esteja agindo sem reflexão própria.

Os símbolos podem aproximar pessoas, mas também estabelecer fronteiras. Em determinados contextos, tornam mais visível a oposição entre grupos e reforçam a percepção de que existem lados distintos. Sua influência depende da história que carregam, das relações que ajudam a construir e das circunstâncias em que são utilizados.

Mas o que enxergamos quando olhamos para um gesto?

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A saudação de Katniss e o “L” brasileiro revelam algo que vai além da comunicação visual. Um gesto adquire força quando deixa de ser apenas um movimento corporal e passa a concentrar lembranças, valores, emoções e expectativas compartilhadas.

Talvez seja por isso que símbolos tão simples possam provocar respostas tão intensas. Eles oferecem uma forma de tornar visível aquilo que muitas pessoas sentem individualmente, mas que nem sempre conseguem expressar em palavras. Ao mesmo tempo, podem despertar perguntas sobre as razões pelas quais escolhemos determinados grupos, figuras e ideais como referências para nossa própria identidade.

Compreender esse processo não exige desqualificar as convicções de quem utiliza um símbolo, tampouco aceitar automaticamente as ideias que ele representa. Exige reconhecer que a experiência humana é atravessada por vínculos afetivos e que nossas escolhas também são influenciadas pelas histórias que compartilhamos.

Quando você vê alguém levantando três dedos em homenagem a Katniss ou formando um “L” em uma manifestação política, consegue perceber apenas o gesto ou também procura compreender a história, as emoções e os vínculos que fazem aquela pessoa atribuir significado a ele?

Olhe de maneira mais profunda!

Paz e luz.

 

1 – Jogos Vorazes é uma série de livros de ficção distópica escrita pela autora norte americana Suzanne Collins, adaptada para o cinema. A história se passa em Panem, uma sociedade autoritária na qual jovens são escolhidos para participar de uma competição mortal transmitida pela televisão. A protagonista, Katniss Everdeen, torna-se um símbolo de resistência contra o regime, e o gesto de três dedos levantados passa a representar respeito, solidariedade e oposição à opressão.

2 – Sigmund Freud (1856–1939): Médico neurologista austríaco, fundador da psicanálise. Suas teorias investigam a influência do inconsciente, dos desejos, dos conflitos psíquicos e dos mecanismos de identificação sobre o comportamento humano. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), Freud examinou como os vínculos emocionais e a identificação entre indivíduos contribuem para a formação de grupos e influenciam o comportamento coletivo.

3 – Ada Colau Ballano: Política e ativista social catalã, prefeita de Barcelona entre 2015 e 2023. Em outubro de 2026 foi escolhida para liderar a candidatura à presidência do Governo de Espanha pela Frente Amplio nas eleições gerais espanholas de 29 de novembro de 2026.

4 – Claudia Sheinbaum Pardo é uma física, engenheira ambiental e política mexicana, atual presidenta do México, eleita nas eleições gerais em 2024. Antes foi chefe de governo da Cidade do México, cargo equivalente a um governador de estado, entre 2018 e 2023.

5 – Jean-Luc Mélenchon: Político francês, fundador do movimento França Insubmissa, lançado em 10 de fevereiro de 2016. Foi candidato deste movimento nas eleições presidenciais de 2017 e nas eleições de 2022, e é o seu candidato designado à eleição presidencial de 2027, anunciada oficialmente em 3 de maio de 2026.

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